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Crítica a "Hugo"

“Hugo” é um filme invulgar, vindo de quem vem. À primeira vista, não parece ser um filme de Martin Scorsese. Se nos tivessem ocultado a identificação do cineasta por detrás desta película e nos fosse pedido para adivinharmos o nome desse mesmo cineasta, decerto não hesitaríamos em lançar nomes como Tim Burton, Chris Columbus ou até Steven Spielberg para a pilha das hipóteses mais viáveis. Isto porque “Hugo” possui o perfume de magia tão próprio das fitas de Burton, o equilíbrio entre o drama e a comédia tão característico dos trabalhos de Columbus, e o cheirinho de intriga familiar sempre presente nas obras de Spielberg. Mas o realizador desta obra tão bela quanto enternecedora chama-se Martin Scorsese. Sim, esse mesmo. O cérebro por detrás de fitas tão chocantes, perturbadoras e controversas como “Taxi Driver”, “Raging Bull”, “Cape Fear”, “Gangs of New York” e “The Last Temptation of Christ”, só para referir algumas. Ora, é certo que uma história juvenil sobre um órfão que devolve a paixão pelo cinema ao lendário Georges Méliès não é propriamente o tipo de material que estamos habituados a ver nas mãos de Scorsese. Mas até o icónico realizador de 69 anos de idade tem o direito de experimentar novas facetas da 7ª Arte, especialmente quando já não tem nada a provar perante ninguém. E a verdade é que, apesar de não ter a mesma força e até a mesma consistência narrativa das grandes obras-primas do realizador nova-iorquino, este “Hugo” não deixa de ser uma fita deliciosa e cheia de magia. Uma fita que presta homenagem ao próprio legado do cinema, sendo ao mesmo tempo uma peça nostálgica sobre os primórdios da indústria e uma carta de amor à capacidade que esta arte tem de pôr as pessoas a sonhar bem alto.

 

Sediado numa Paris encantadora da primeira metade do século XX, “Hugo” convida-nos a acompanhar as desventuras de um rapazinho órfão chamado Hugo Cabret (Asa Butterfield), que vive nos labirintos que compõem as entranhas dos relógios de uma estação ferroviária parisiense. Só e abandonado pelo pai (Jude Law) morto num incêndio e pelo tio (Ray Winstone) doidivanas, Hugo sobrevive à custa do roubo forçado. O único legado do seu pai é um autómato misterioso que se encontra avariado. E convicto de que este esconde alguma mensagem importante, o rapaz dedica a sua vida a tentar consertá-lo com várias peças que vai saqueando aqui e acolá. Um dos seus pontos preferidos de pilhagem é a loja de brinquedos de Georges Méliès (Ben Kingsley), um velhote carrancudo e apático que esconde um passado glorioso no mundo do cinema. Mas num dia como tantos outros, Hugo é apanhado em flagrante delito por Méliès, que o obriga a trabalhar na loja como forma de pagamento pelos inúmeros assaltos ali efectuados. E desta forma tem início uma viagem com contornos de aventura, que levará Hugo a desvendar um enorme mistério ocultado à força pelo velhote amargurado. Tudo com a ajuda da inteligente e extrovertida Isabelle (Chloë Grace Moretz), que constrói uma amizade instantânea com o rapaz e se revela uma aliada de grande valor na batalha contra os caprichos de um guarda (Sacha Baron Cohen) verdadeiramente excêntrico e o seu cão de orelhas pontiagudas…

 

A força maior de “Hugo” reside na forma natural e relativamente calculada como capta o fervor dos espectadores. De facto, os cenários são tão maravilhosos e as personagens tão genuínas que o espectador não tem como escapar a um estado de deslumbramento quase instantâneo. Houve já quem dissesse que nas mãos de Scorsese o 3D era arte pura. E de facto assim é. Pela primeira vez desde o épico futurista “Avatar”, o efeito 3D alia-se a uma fotografia apaixonante e a um enredo em crescendo para nos inserir por completo num mundo de magia onde tudo parece ser possível de ser concretizado. A primeira sequência do filme mostra logo por si só toda a genialidade de Scorsese. Com a ajuda de uma banda-sonora simplesmente deliciosa por parte do mítico Howard Shore e também com o auxílio de uma montagem suave e extremamente bem efectuada por parte de Thelma Schoonmaker, essa sequência introdutória desfruta ao máximo do efeito de profundidade do 3D para fazer com o que espectador se sinta um autêntico transeunte daquela estação ferroviária. Por momentos sentimo-nos autenticamente na Paris dos anos 30 e só fica mesmo a faltar o cheirinho dos croissants acabadinhos de sair do forno. Nas mãos de um realizador vulgar, a estação parisiense praticamente passaria despercebida. Nas mãos de Scorsese, contudo, quase que ganha vida própria. E isso apenas ajuda o espectador a entrar no estado de espírito da película. Uma película que se consegue afirmar como uma das mais belas e encantadoras dos últimos anos, precisamente porque apela à libertação do lado onírico e romântico que todos conservamos nas nossas almas.

Mas por muito deslumbrante que “Hugo” seja, infelizmente nem tudo são rosas. O elenco cumpre com tudo aquilo que se lhe exigia, o realizador mostra-se perfeitamente à-vontade neste mundo mais mágico (quase fantástico) e menos acinzentado da 7ª Arte, e toda a vertente técnica da película pouco deixa a desejar. Porém, como fita juvenil que é, “Hugo” não consegue desmarcar-se completamente de alguns lugares-comuns perfeitamente desnecessários, assim como de uma certa previsibilidade que lhe retira alguns pontos. É mais difícil ser-se original e irreverente numa fita destas características. Todos sabemos isso. Mas de Scorsese e de uma obra que tem sido constantemente apelidada de “obra-prima” esperava-se um pouco mais de originalidade e um pouco menos de déjà-vu. A meia hora do final já prevemos facilmente como tudo vai acabar. Certas partes do enredo sucumbem à resolução fácil e forçada das problemáticas apresentadas, obviamente com vista ao praticamente obrigatório happy-ending. E isso, por muito que não destrua tudo o que está para trás, atenua um pouco as qualidades desta obra. Resumindo e concluindo, merece figurar nas listas de nomeados a melhor filme do ano. Mas está longe de ser o melhor filme de 2011.

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