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Blade Runner: Notas sobre uma obra-prima (V)

el  quarta, 15 fevereiro 2012 01:00 Escrito por 

Recepção: A prova do algodão e uma teoria a confirmar

Há uma prova do algodão para qualquer obra artística. O tempo. Os clássicos não distinguem passado de futuro. Para eles só existe o presente. São obras fluidas, maleáveis, capazes de se adaptarem a movas mentalidades e de fazer a sua magia independentemente da distância que esteja entre o que criou e o que contempla.
Com trinta anos às costas, que se sentem como muitos mais no acelerado mundo positivista em que (mal) vivemos, “Blade Runner” não só superou a prova do algodão, como se mostra cada vez mais brilhante e próximo do seu mundo imaginado, um mundo cuja beleza bizarra está certamente muito afastada do verdadeiro futuro que fabulou (tão próximo, se os maias o permitirem), mas cujos temas existenciais postos a discussão não poderiam ser melhor escolhidos.

 

Contudo, há algo mais em “Blade Runner” além do seu extraordinário poder de deslumbramento e profecia acerca destes tempos cada vez mais desumanizados. Há algo evasivo e intangível, mas cuja presença é inquestionável. Esse algo é revelado nesta breve e bonita reflexão de Tony Scott que resgatamos de acordo com a sua experiência vendo “Blade Runner” e que é a perfeita ante-sala para a segunda parte deste artigo, onde nos envolveremos na análise fílmica em detalhada do filme.

“Dos meus cinco filmes favoritos, o primeiro é 'Blade Runner'. E não o é porque foi feito pelo meu irmão. Está relacionado com o meu passado. Tem muito do Ridley e de onde crescemos. Uma grande parte da sua imaginação e dos sues sonhos foram postos no ecrã com este filme. A maioria das coisas tinham traços das nossas recordações. No sítio onde crescemos chovia. Crescemos no norte de Inglaterra onde chovia continuamente. E os comics que Ridley e eu costumávamos ler... Quando vi o filme, vi tanto dele mesmo levado ao ecrã...”.

Evocadoras como são as palavras de Tony Scott, contêm uma poderosa verdade. Ridley Scott estava a fazer algo mais do que que realizar “Blade Runner”. Estava a explorar a própria alma, atrevendo-se a revelar-se de uma maneira extraordinariamente onírica, e a mostrar a sua essência mais íntima disfarçada de uma poética ficção-científica. E aqui chega, como conclusão, uma das minhas teorias mais pessoais sobre um dos meus artistas favoritos.

Muita gente não entende como o autor de uma trilogia do fantástico provavelmente irrepetível – tocando todas as áreas e para mais, consecutivamente: “Alien” (terror), “Blade Runner” (ficção-científica) e “Legend” (fantasia) – não regressa ao género em trinta anos de carreira e submete a sua incrível visão cinematográfica ao serviço de fórmulas mais comerciais e indubitavelmente menos arriscadas do que aquelas que maneja, há que dizê-lo, com absoluta mestria. Pois a razão poderia adivinhar-se com as reflexões do irmão. Ridley menino herdou uma visão do mundo através desses comics que se misturou com a sua própria sensibilidade artística e que decidiu conservar em três grandes quadros cobrindo todo o espectro do fantástico. E depois de dizer o que tinha a dizer, especialmente ao ver que não era compreendido calou-se.

Mas agora que a velha amiga que a todos espera certamente lhe sorriu por mais de uma vez, decidiu voltar a essa visão. E, se a minha teoria não estiver errada, o olhar do ancião sobre o homem que foi uma criança nesses três filmes, culminará com o renascimento da maravilha que muitos acharão inexplicável. Será então que, ao falarmos de “Prometheus”, se recordarão das palavras de Tony Scott. Nelas, espero não me enganar, vemos, despida a bela alma de Sir Ridley Scott. Nelas, e certamente não serei o único, me vejo também a mim.

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