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Blade Runner: Notas sobre uma obra-prima (IV)

el  terça, 14 fevereiro 2012 23:30 Escrito por 

Pós-produção: A conspiração dos tolos

Os negócios têm muitos disparates. Há muitos jogos de egos e muito nervosismo quando está tanto dinheiro em jogo.  Ridley tinha prolongado a rodagem várias semanas para depois da data limite. E tinha gasto bem mais do que o planeado em papel. Além disso, ia-se deparar com uma edição tremendamente complicada onde deveria equilibrar um filme onde, após um primeiro visionamento, admitiu não entender “o que raio se estava a passar”. E claro, os tolos, com dentes de tubarão neste caso, não tardaram a levar a cabo a sua conspiração.


Bud Yorkin liderava a lista de dores de cabeça para o cineasta britânico. Yorkin, possuidor de uma extensa filmografia como cineasta, queria roubar o filme de Scott. Já durante a rodagem pressionou, inclusivamente in situ, para que as sequências se realizassem de outra forma que acreditava ser mais adequada. Mas foi durante a montagem que se alinhou com o resto dos financiadores para convencê-los de que tinham de remediar aquilo de alguma maneira.
A solução do estúdio para tornar mais comercial um filme que não tinha nada a ver com esse epíteto (e é preciso reconhecer que 1982 foi o ano de competição mais cerrada entre títulos do fantástico, fazendo vítimas ilustres como “Blade Runner” e “The Thing” que enfrentaram a sua penumbra contra a maravilhosa luminosidade de “E.T.”), monólogos em off e um happy end fechado. Nenhuma das propostas convenciam Scott, mas o cineasta, num primeiro momento, aceitou profissionalmente os retoques.
Uma das experiências mais divertidas em visionar “Dangerous Days” é precisamente ao repassar a etapa dos monólogos. As constantes referências sobre o desastre que estavam a fazer acrescentando as reflexões de Deckard são hilariantes. O maior despropósito chegou com o despedimento momentâneo de Scott durante a fase final de montagem, quando Harrison Ford ia para as sessões de gravação da voz off sem apoio do realizador. “O contrato obrigava-me a fazer a narração com voz off”, recordava, divertido, Harrison Ford. “Na última sessão em que fui gravar estava completamente sozinho. Estava na sala com o microfone preparado, mas não via ninguém. Por isso fui buscar alguém. Na sala contígua estava um tipo de fato-macaco cinzento, com um cinto enrolado e borracha em volta. Levava um tubo pequeno (acho eu) e estava a digitar num máquina de escrever portátil. Por isso pensei: 'Deve ser arumentista'. Abaixei-me e disse-lhe: Olá, sou Harrison, como está. Fez-me isto [agita a mão repetidamente, como se enxotasse um incómodo mosquito]. Por isso fui-me embora. Uns quinze minutos depois apareceu na sala. Obviamente era o autor do que ia ler. Pensei: 'Este tipo está tão alheado do processo que não devo cair na armadilha de discutir com ele. Simplesmente tinha de fazer aquilo. Fazê-lo o melhor possível e voltar a casa. Porque já tinha discutido arduamente nas outras versões para conseguir a mlhor narração possível ainda que não a considerasse necessária”.
Por sorte, o tempo veio a dar razão a Scott e permitiu que o mestre montasse o filme tal como pretendía. Sem monólogos nem parvoíces.

 

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