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Blade Runner: Notas sobre uma obra-prima (III)

el  terça, 14 fevereiro 2012 20:40 Escrito por 

Rodagem: Sacrifício

Se alguma palavra define como foi a produção in loco de “Blade Runner” ela é sacrifício. Daryl Hannah magoou o cotovelo partindo acidentalmente um copo logo na primeira cena e teve de aguentar uma rodagem muito física, especialmente para a personagem dela, com essa dor constante. Harrison Ford viveu num isolamento total, só saindo do camarim para a filmagem das suas cenas, sem nada além de indicações de Scott que queria obter uma interpretação concreta da estrela para a qual o seu silêncio era fundamental. A equipa americana de filmagens sentiu-se menosprezada e explorada, chegando mesmo a uma revolução, como veremos. E Jordan Cronenweth, o extraordinário director de fotografia do filme, começou a rodagem de pé, mas terminou-a em cadeira de rodas devido a uma agravamento da doença de Parkinson que não bastou para o afastar do seu posto, devido à paixão que sentia pelo projecto.

 

Sim, Scott pediu desde o início que dessem o máximo. Talvez mesmo mais. Talvez tenha exigido mais do que o estritamente profissional e tenha exagerado ao assumir que o compromisso da sua equipa e produtores era da mesma natureza que o seu: existencial; quase que diríamos religioso. Podemos dizer sem hesitações que “Blade Runner” é o filme que é porque essas peças fundamentais de que falamos no parágrafo anterior sabiam o que estava em jogo.

 

 

Rutger Hauer (Roy Batty): “Sim, às vezes o nosso trabalho é duro. E o quê? Pode ser certo que o nosso trabalho é por vezes fatigante, mas não creio que devamos queixar-nos e lamentarmo-nos: ‘Deu-me cabo da vida! Foi exaustivo!'. Estávamos a fazer algo de muito especial”.

Douglas Trumbull (Supervisor de efeitos especiais): “Para a maioria da equipa era só mais um trabalho. Para alguns, era algo especial. Há muitos filmes (não preciso dizer quais, todos os conhecemos) que duram quanto dura a sua exibição. Depois, são esquecidos e ninguém os quer voltar a ver. Mas filmes como este, são para sempre”.

Lawrence G. Paull (Desenhador de produção): “Era algo... Era algo mágico. Por vezes tínhamos pressão. Outras vezes não. Mas é normal que em cada filme importante e ambicioso haja muita pressão”.

Curiosamente, no grupo dos eleitos que estavam absolutamente comprometidos com a visão e o modus operandi de Ridley Scott, não encontrávamos Harrison Ford. Scott fez algo muito inteligente, e também muito cruel, com Ford neste projecto. A sua personagem, Deckard, encontra-se completamente alienada da sociedade e de si mesmo. A sua odisseia ironicamente é uma odisseia pela sua identidade, descobrindo que não é aquilo que sempre pensou ser, mas sem que isto queira dizer que a ilusão de verdade que supõe ser a vida deva ser reduzida em algum aspecto. Por isso, para obter a melhor interpretação possível, Harrison Ford teve de enfrentar um incómodo período de rodagem, uma rodagem sem nenhum tipo de ajuda externa de forma a poder compor devidamente a personagem, uma rodagem de isolamento. E foi essa rodagem que Ridley Scott escreveu para ele.

“Uma parte de ti quer estar completamente sincronizada com os desejos do realizador”, comentava Ford recordando o mau bocado que passou parente o aparente desinteresse e falta de apoio de Scott durante as filmagens. “Mas uma parte perversa de ti pensa: 'Sabes, ele que se foda!'. Não me importa. O importante é estar aqui e participar nas interacções que surjam nas cenas. ¡Isto é só um filme! Ele que se preocupe”.

Esta má disposição teve os seus frutos no pico da produção, que ainda por cima coincidiu com os últimos dias de rodagem: o confronto com Roy Batty e o monólogo que antecede a sua morte perante um Deckard mudo de espanto. Ford reconhece sem reservas que esse momento se encontra entre as melhores experiências jamais vividas na sua carreira interpretativa (não é só o que ouve, mas sim como ouve!):

“Rutger é um actor audaz, fantástico e interessante. Foi maravilloso trabalhar con ele. Em algunas das cenas que fizemos juntos viví alguns dos momentos profissionais mais satisfatórios de toda a minha carreira. Creio que ambas as personagens dependem um do outro de uma forma dramática. Estou muito agradecido por ter tido a sorte de contar com a sua capacidade, a sua força e a sua concentração na hora de trabalhar”.


 

O “calvário” não foi exclusivo dos actores. Para sermos exactos quem mais sofreu foram os grandes anónimos, essa infindável lista de créditos que poucos ficam a ver quando as luzes se acendem e a história está concluída.

Ridley trabalhava pela primeira vez com uma equipa norte-americana; e o seu forte, especialmente na juventude, não era o tacto. A sua exigência era máxima. Os seus elogios muito parcos. E a sua atitude no set, a de um ditador pouco paternalista.

Quando a tua equipa te conhece e sabe do que és capaz, seres um ditador poder ser suportável ou mesmo agradecido, as pessoas com quem trabalhas, como seria de prever, desejam saber constantemente onde se encontram os seus limites e superá-los. Mas se a equipa é nova é preciso andar com cuidado. Não há um passado comum a que se agarrar para saber que as dificuldades do presente serão superadas e que são para um bem maior, inclusivamente superior ao realizador: conseguir a excelência. E se a equipa além de nova é estrangeira, precauções redobradas, porque a primeira coisa que pensarão quando as coisas complicarem será: “¿Quem se acha este (introduzir a denominação pejorativa correspondente à nacionalidade a que se refere; inglesito poderia servir neste caso)?”. Quando as tuas decisões são estranhas desde o início, as coisas irão de mal a pior.

A primeira coisa que Ridley Scott fez ao começar a produção de “Blade Runner”, que arrancou pela cena do interrogatório na Tyrell Corporation, foi pedir que virassem as enormes colunas que adornavam a sala. Os desenhadores de produção estavam incrédulos. Mas Ridley não estava ali para discutir com ninguém, apenas para tomar decisões. A volta, capitel a servir de base, tinha um significado estético evidente. Todo o maravilhoso detalhe do capitel no teria relevância no topo do plano e a acção estava concentrada na metade inferior. Além disso, a alteração lógico-construtiva contribuía para a nuance onírica que tinha de impregnar cada plano da produção. Mas Scott não se incomodou a convencer a equipa. Simplesmente deu uma ordem. E o primeiro grande atraso da produção foi logo no primeiro dia.

A gota que fez transbordar o copo e que propiciou uma actuação xenófoba e parcial por parte da equipa foram umas declarações realizadas por Scott para um jornal britânico onde afirmava preferir de longe as equipas do seu país e inclusivamente brincava dizendo que os dos motivos para preferir os técnicos britânicos era que se dirigiam a ele dizendo: “Yes gov’nor”. A reacção não tardou. Marvin G. Westmore, caracterizador do filme, distribuiu uma série de t-shirts com a seguinte frase estampada: “Yes gov'nor my ass!”. Informado do problema, Ridley contra-atacou com um slogan também impresso numa t-shirt distribuída pelos seus mais próximos colaboradores: “Xenophobia sucks”, um chapéu de capitão e bastantes galardões. Scott enfrentou a equipa em silêncio absoluto, deixando que os slogans falassem. “Estavam todos com as t-shirts, e eu ignorei-os totalmente. Não disse uma palavra. Eles ignoraram-me. Acabamos a primeira cena todos com aquela ridícula vestimenta. A meia da manhã as pessoas começaram a tirá-la. À hora de almoço todas tinham desaparecido”. Resumidamente, Ridley voltou a escapar impune. Porque si estás com ele, bem. Se não, problema teu.

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