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Uma pequena história do sword & sorcery

el  segunda, 30 março 2015 08:00 Escrito por 

O rei Conan vai voltar dentro de um par de anos, mas voltará o género com ele?

O sword and sorcery como género já teve melhores dias. Longe vão os tempos de heróis como Conan e Red Sonja, e experiências recentes como Solomon Kane e Seventh Son (ou mesmo o remake de Conan) tiveram resultados terríveis. Regressemos no tempo e divaguemos um pouco por todas as suas variantes.

 

Todos os fãs do fantástico sabem que as linhas entre géneros são ténues. Os autores experimentam de tudo e tão depressa encantam crianças como aterrorizam um adulto. Sword and Sorcery é um nicho dentro do género da fantasia que divaga um pouco por todos os territórios. Pelo nome bastaria filtrar filmes com espadas e feitiçaria para obter sword and sorcery, mas é preciso ser um pouco mais específico. Apesar de o género ter nascido na literatura modernista pelas mãos de Robert E Howard, falecido em 1936, o termo só nasceu em 1961 por Fritz Leiber, membro da Hyborian League. Talvez por os seus autores, como Howard e Edgar Rice Burroughs, terem sido publicados em revistas e antologias de FC (tal como os contos de terror de Bradbury e Lovecraft), a definição tem sido terrivelmente vaga, afirmando apenas que precisa de uma história com ritmo acelerado e tem lugar num ambiente mítico ou fantástico. Isso pode ser um planeta distante, pode ser no tempo dos romanos ou na Idade Média, até no Renascimento. Terá derivado do italiano “sword and sandal” que se dedicava à mitologia romana e aos contos bíblicos, também com espadachins musculados e alguma magia. Aliás, no cinema um dos primeiros casos foi o vencedor de Veneza, “La Corona di Ferro” de Alessandro Blasetti, mas na época o género não vingou.

Nos anos 50 houve a adaptação a cinema das populares aventuras em banda desenhada do Príncipe Valente (Hal Foster desenhou-as entre 1937 e 1970), uma variação da lenda Arturiana.

Nos anos 60 o cinema infantil começou a explorar esse nicho de forma mais descarada. A Disney em 1959 trouxe-nos “Sleeping Beauty” a que se seguiu “Sword in the Stone” (1953) onde as feiticeiras transformadas em dragões eram o culminar do medo. No Japão a Toei apostava no "Gato das Botas" (1969) e nos EUA Bert I. Gordon fez, em imagem real, “The Magic Sword” (1962). Se quiserem ver o filme, já está em domínio público: https://archive.org/details/TheMagicSword

Com os satélites no ar e a chegada à Lua, a FC dominou completamente as mentes e o espaço era a nova fronteira. De notar que na Literatura o tema Espaço já tinha tido uma boa parte das suas grandes referências publicadas, e por isso não era preciso pensar muito para encontrar uma história.

 

Os anos 70 foram muito fracos no que diz respeito a este subgénero específico. Podemos contar “Wizards” de Bakshi. Mas talvez os sabres luminosos e os jedis com poderes inexplicáveis, tenham feito recordar histórias publicadas por Robert E. Howard e da mitologias grega, romana, e das Mil e Uma Noites. Eram mundos por explorar e o cinema precisava de ideias. Em especial com autores mortos para poderem ajustar sem grandes complicações. Foi também a altura de lançamento de vários Role Playing Games (o famoso Dungeons & Dragons é de 1974) que ajudaram a popularizar criaturas que até então pertenciam ao estranho mundo da high fantasy.

 

Os anos 80 foram o ponto marcante do sword and sorcery como para outros subgéneros do fantástico. O público exigia histórias cada vez mais espectaculares e magos como Stan Winston, Rick Baker, Tom Savini, queriam mostrar o seu valor e igualar uma geração que incluía Willis O’Brien, Phil Leakey, Bud Westmore, Ray Harryhausen, Colin Arthur, Dick Smith ou Carlo Rambaldi, vários deles ainda activos no ramo. Foi um culminar de técnica ímpar na história do cinema e por mais estranho que fosse o desejo do realizador, ou mais criativa fosse a lenda desencantada pelo argumentista, eles arranjariam forma de a trazer à vida de forma tão simples que, perante a tela, nos pareceria pura magia.

Claro que também estava a explodir o fenómeno televisivo e uma variedade de programas permitia descobrir possíveis actores para interpretar tanto os deuses como os monstros.Em 1975 o documentário ”Pumping Iron” mostrou a preparação culturista de Arnold Schwarzenegger (Conan, Hercules, Kalidor) e Lou Ferrigno (Hercules, Sinbad), entre outros, sem saber que anos depois se viriam a tornar estrelas do cinema.

Estando a geração infantil dos anos 60 já crescida, era chegada a hora de os entreter com filme do mesmo género com que tinham delirado vinte anos antes. Os anos 80 começaram com “Hawk the Slayer” de Terry Marcel onde Hawk vai enfrentar o malvado irmão, usando apenas a espada mágica do pai e a companhia de uma feiticeira, um elfo, um anão e um gigante. No ano a seguir chegaram às salas “Clash of the Titans”,  “Dragonslayer” e “Excalibur”. Não havia como parar este movimento e só com este trio já dá para imaginar a variedade temática que se inclui no S&S.

1982 foi o ano de “Conan the Barbarian” que precisou de quase uma década até alguém o querer produzir. No mesmo ano começou a saga italiana “Ator” que se tentou colar ao sucesso desse filme. Também Don Coscarelli entou no género com “The Beastmaster”, Roger Corman trouxe-nos “Sorceress” e foram lançados “The Sword and the Sorcerer” (leiam a entrevista dada por Pyun ao VHS) e as animações “The Flight of Dragons” e “The Dark Crystal”.

Em 1983 Corman traz-nos da Argentina “Deathstalker”, e de Itália chegam “Hercules” de Luigi Cozzi com Lou Ferrigno, “Conquest” de Lucio Fulci e “I Paladini - Storia d'Armi e d'Amori“ de Giacomo Battiato. Entre as produções americanas, Bakshi fez “Fire and Ice” e Peter Yates “Krull”.

A década deu a conhecer múltiplas variações da temática com “Ladyhawke”, “Red Sonja”, “Masters of the Universe” (que de espadas tem pouco), “Highlander”, “The Black Cauldron”, “Willow”, “Legend”... títulos que se confundem com a história do Cinema que crescemos a ver.

 

Os anos 90 não foram tão criativos e fomos inundados de sequelas, remakes e adaptações arturianas. Entre os originais, quase só vale a pena referir “Dragonheart”. Era o fim de uma era dourada de criatividade. No entanto o sucesso de O Senhor dos Anéis mostrava que a magia e os guerreiros corajosos que enfrentavam dragões continuavam a ter público, só não era o mesmo público. Queriam algo mais específico. O regresso dos monstros clássicos com a saga “The Mummy” aproveitou a magia egípcia para nos dar um cheirinho de sword and sorcery que só teria a ganhar com um maior afastamento da nossa época, o que foi conseguido anos depois no spinoffThe Scorpion King”.

 

Com a mudança de século o tema deixou de ser mainstream. Uwe Boll brincou com ele em “In the Name of the King” (2006), a NBC teve a série “The Monkey King” (2001), e James Purefoy protagonizou “Solomon Kane” (2009) e “George and the Dragon” (2004). Só que o público pedia algo mais infantil como Harry Potter e Crónicas de Narnia. A fantasia medieval como “Eragon” e “Beowulf” não conseguia afirmar-se, ainda que espadas e magia continuassem de mãos dadas nos Piratas das Caraíbas. A fronteira entre géneros cada vez é mais ténue.

 

Esta década voltou o flagelo das sequelas e remakes ("Conan", "Clash of the Titans"), havendo excepções como “Prince of Persia” ou mais recentemente “Seventh Son”. As versões em imagem real de Branca de Neve e Bela Adormecida estão a esforçar-se por manter a magia bem viva, mas não é como antigamente. Mais uma vez, a fantasia medieval de “Game of Thrones” foi escolhida em detrimento de algo mais mágico. Felizmente para o ano teremos “Warcraft” de Duncan Jones e o renascer das lendas arturianas em “Knights of the Round Table” de Guy Ritchie, mega-produções a provar que os estúdios ainda acreditam no sword and sorcery. Se correrem bem, não faltarão aproveitadores a quererem explorar o filão. Se correrem mal, continuaremos à espera de algo que funcione.

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