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O Fim da Sabedoria

el  sábado, 07 outubro 2017 07:30 Escrito por 

O percussor do fantástico em Portugal

Conheci António de Macedo antes do 25 de Abril, quando o Cineclube do Porto era um dos poucos espaços de liberdade e de cultura e sob a capa protectora da Fundação Gulbenkian o Centro Português de Cinema deu origem ao que seria designado de “O Ano Zero do Cinema Português”. Pressentiam-se tempos de mudança e o Cinema queria estar na primeira linha. De todos os grandes cineastas portugueses da segunda metade do século XX, creio que António de Macedo foi o mais injustiçado de todos. Talvez porque sonhou um cinema que não era possível em Portugal.

Sonhou primeiro fazer filmes onde a Literatura fosse capaz de encontrar um outro público. Mas as escolhas de Bernardo Santareno e Fernando Namora eram demasiado arriscadas para o regime e não fosse o peso institucional da Gulbenkian, estes filmes malditos teriam tido o destino das prateleiras que a censura ia enchendo.

Sonhou depois com uma marca absolutamente original e única no panorama do cinema português como era o fantástico de ficção-científica. Quando não havia nem condições financeiras para suportar os efeitos, nem as equipas técnicas para os materializar, mau grado as soluções engenhosas que Macedo encontrava para suprir essas falhas. Além de que o público, talvez por o marketing muito direccionado, tendia a pensar os seus filmes com uma marca de esoterismo que os anos de brasa da revolução não davam grande margem de manobra.

Por último, sonhou um cinema cooperativo em que a câmara podia ser um arma e dedicou-se, com paixão e um labor continuado, a registar as idiossincrasias de uma revolução alegre e do poder popular. Os ideais da Cinequanon eram uma declaração de princípios de um cinema que, mesmo apoiante da revolução, nunca perdia a noção de que o filme tem uma estética e o realizador é um artista.

Com esta tripla dimensão de sonhador, António de Macedo acabou por ficar afastado dos grandes negócios da produção subsídio-dependente, nunca teve o beneplácito do público, e a revolução entrou nos anos de chumbo. Penso não estar enganado em que esta incompreensão generalizada e injusta de que foi alvo, até da parte dos seus pares, acabou por o conduzir a uma espécie de exílio interior voluntário. Um pouco afastado das mundanidades em que o cinema se transformou.

Como se não bastasse, António de Macedo protagonizou em 79 uma das maiores e bizarras polémicas com o seu “As Horas de Maria”, um filme não contra Fátima, mas contra a visão miserabilista, milagreira e masoquista de uma religião como ópio do povo. Os sectores mais reaccionários de um Igreja mal refeita da revolução fizeram boicote ao filme e manifestações ululantes à porta do cinema, a exemplo do que aconteceu com “Je Vous Salue Marie” de Godard. Hoje, com o Papa Francisco a criticar essa mesma visão da Igreja, talvez que “As Horas de Maria” fizesse o seu caminho.

Apesar de todos os infortúnios deste homem sábio, virtuoso e afável, ao menos que sobre esse registo de uma vida e uma obra, em boa hora compilado por João Monteiro em “Interstícios”, que lhe faz honra para a posteridade e que no título traduz essa peculiaridade do cinema de António de Macedo, sempre nos limiar e nas franjas entre dois mundos. A sua exibição no prestigiado festival de Sitges comprova que está entre os grandes do fantástico mundial, mas ainda por descobrir no seu país.

 

 

António Reis

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