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António de Macedo (1931-2017)

el  quinta, 05 outubro 2017 23:00 Escrito por 

Faleceu o autor do fantástico português.

Quando parecíamos viver um momento de ouro para o fantástico nacional, com estreias eminentes de vários filmes, perdemos o único nome que conseguiu construir uma carreira em torno do género. António de Macedo faleceu hoje após doença prolongada.

Cineasta e escritor entre muitos outros talentos, foi um dos fundadores do nosso Cinema Novo, fundou o Centro Português de Cinema, escreveu sobre cinema, escreveu ficção-científica e fantasia e filmou enquanto pode. De recordar que quando estreou "As Horas de Maria", um filme considerado blasfemo pela mentalidades de então, até os espectadores foram agredidos. Mas nem assim parou, tendo construído uma das carreiras mais completas e variadas que seria possível.

A sua carreira no cinema ficou suspensa em 1993 com "Chá Forte Com Limão", tendo chegado aos cinemas no ano passado "O Segredo das Pedras Vivas", nova versão de um trabalho anterior.

Por coincidência dia 4 foi exibido na Cinemateca "Nos Interstícios da Realidade", documentário de João Monteiro sobre o realizador que tem feito festivais desde o DocLisboa há um ano e marcará presença em Sitges nos próximos dias.

Apesar de não o ver há uns anos, a memória que tenho dele é extremamente positiva. Macedo sempre esteve disponível para falar com quem pedisse, apoiou os jovens e fez tudo o que a saúde lhe permitiu. O seu lugar no imaginário português está assegurado.

Nests excertos que o próprio escreveu sobre os seus filmes, podemos ver como o artista se dividia e multiplicava nas mais diversas tarefas, completamente fascinado por cada uma.

Os Emissário de Khalôm
Mas o assunto continuava a atrair-me e voltei e explorar a ideia dessa prodigiosa cidade com 240 mil anos que tanto surge no passado como no futuro, aqui como em impensáveis regiões do Universo, e escrevi um romance de ficção científica, Sulphira & Lucyphur, publicado em 1995, uma espécie de space opera onde o tema dos «emissários de Khalôm» ressurge e se revê em novas dimensões.

O princípio da Sabedoria
E já que falamos em viagem, não tenhamos medo de afirmá-lo: construir um filme — sobretudo um filme destes — é como fazer uma viagem em noite de temporal: nunca sabemos em que precipício nos poderemos sumir. Ou que forças corremos o risco de convocar, sempre que fixamos no celulóide os delírios da nossa imaginação à solta. Uma experiência arriscada.

Chá Forte Com Limão
Sendo uma história de mistério e de clima espectral decidi, ao contrário do que é convencional nestes casos, evitar as noites tenebrosas e o sinistro relampejar de tempestades, e disse ao Manuel Costa e Silva, director de fotografia, que a minha ghost story deveria ser luminosa, mais diurna que nocturna, não só por se passar no Verão mas porque eu entendia que as cores claras e luminosas transmitiriam melhor a ambiência diáfana e sobrenatural que eu pretendia para o desenrolar da acção.

Os Abismos da Meia-Noite
Para o conseguir, gravámos primeiro o ruído de duas pedras relativamente pequenas, esfregadas uma na outra, com o microfone em cima delas a captar o som quase no limite da distorção. Em seguida regravámos esse som a meia velocidade, o que o fez descer uma oitava tornando-o mais grave e mais lúgubre. Ficámos assim com dois sons, o do ranger de pedras em tonalidade normal e o mesmo muito mais profundo e mais lento. Depois pesquisámos nos arquivos sonoros da Cinequanon e seleccionámos um terceiro som: os rangidos de correntes a passarem em roldanas, gravados a partir do trabalho duma grua numas docas. Finalmente acrescentámos um quarto som, o ambiente ensurdecedor duma fábrica de têxteis. Estes quatro sons, depois de devidamente trabalhados e reguladas as suas intensidades relativas, foram alinhados em quatro bandas paralelas e sincronizados com o movimento da porta. O resultado transmite perfeitamente o peso da porta de granito, contribuindo para o dramatismo e para o suspense que a cena exige.

 

Descanse em paz.

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