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John Landis - Um gentil-homem americano em Madrid

el  sexta, 27 maio 2016 21:00 Escrito por 

John Landis é a estrela maior do Nocturna 2016, e a sua simpatia a par do facto de ser uma lenda viva do cinema, tornam a entrevista que nos deu, uma história viva da era dourada do cinema.

Com 65 anos de idade e uma jovialidade e bom humor desconcertantes, Landis aborda sem complexos o sucesso, as novas tecnologias do cinema, a publicidade e a carreira, sempre com uma gargalhada pronta e uma historieta da sua vida dedicada ao cinema.

Aos 8 anos de idade foi ver o “As Sete Viagens de Sinbad” com efeitos especiais do génio de Ray Harryhausen. Ficou tão impressionado que a caminho de casa “perguntei à minha mãe quem é que fazia os filmes e ela respondeu-me que era o realizador. Foi aí que eu decidi o que queria ser quando fosse grande”.


Recorda com nostalgia mas bonomia os bons velhos tempos dos anos sessenta em que começou a trabalhar nos estúdios “distribuía o correio, assistia às filmagens e fui passando por diferentes departamentos. Nos vários plateaus onde continuamente se rodavam filmes eu passeava por entre actores disfarçados de homem-lagosta, soldados japoneses, gorilas e cowboys. Lembro-me até, por exemplo, na rodagem do ‘Justine’ de George Cukor, uma cena completamente delirante com mais de duzentos homens travestidos durante um baile. Na hora de almoço o refeitório tinha estes homens vestidos de mulheres ao lado de outros tantos vestidos de macacos. [...] Vivi os tempos dourados da era dos estúdios, mas, como no filme ‘Fantasia’, assisti à queda dos dinossauros”. Tendo filmado em mais de quinze países como actor e realizador, consegue ter uma palavra de simpatia para com quase todos os seus pares “convivi com Allan Dwan,  Billy Wilder, Howard Hawks e todos os grandes nomes da história do cinema”. Na sua passagem pela Europa, relembra que durante a sua estadia em Almeria onde se rodava ‘Once Upon a Time in the West’ por entre dezenas de outros filmes numa altura em que Espanha era um importantíssimo centro de produção, lhe apareceram dois jovens críticos italianos que por acaso se chamavam Bernardo Bertolucci e Dario Argento".


Fonte inesgotável de pequenas histórias, confessa que, dos filmes que realizou, “Tres Amigos” ocupa um lugar muito especial “rodado na reserva natural do Arizona, com aqueles cactos tirados das histórias do Road Runner, um dos actores era Alfonso Arau, um galá mexicano da altura. Era acompanhado nas rodagens pela mulher Laura, que passava os dias sem dizer uma palavra. Como eu sabia que ela falava inglês, estava intrigado com o seu silêncio e perguntei-lhe o que se passava. Ela disse-me que estava a pensar. Em pensar em quê, retorqui eu. A pensar no que a cartomante me disse nas vésperas do meu casamento. A vidente tinha lido nas folhas de chá que no décimo aniversário do casamento ou algo assim, eu escreveria o livro mais popular de sempre no México, e o meu marido adaptaria esse livro para aquele que se tornaria o mais famoso filme mexicano. Laura, de sobrenome Esquivel, nunca mais escrevia livro nenhum e um dia comentou com o marido sobre que tema deveria escrever. Arau respondeu, como és boa cozinheira, que tal um livro de culinária? E assim nasceu ‘Como Água Para Chocolate’.”


Da sua vastíssima filmografia, além de “Tres Amigos” considera que “Blues Brothers” foi outro dos filmes que o deixou feliz, “o único problema era que o John Belluchi pouco antes se tinha metido na cocaína” e que “Innocent Blood“está injustamente esquecido porque a Warner só se interessa por dinheiro. O filme, agora nos seus vinte e cinco anos, já merecia uma nova edição só pela sua belíssima fotografia”. Numa filmografia de sucesso, há momentos menos bons, “Tenho pena que ‘Burke and Hare’, o meu último filme, não tenha sido bem compreendido pois é a adaptação mais fiel desse caso.”, e alguns que o mundo não esquece “Na altura não me apercebi que ‘Um Lobisomem Americano em Londres’ seria este tremendo sucesso. O Oscar que o filme conquistou, o primeiro para efeitos de caracterização, não é meu, mas do Rick Baker que bem o mereceu. Fez um excelente trabalho.[...] Quanto à sequela em Paris, acho que é uma merda.”


Ainda com imensos projectos em carteira, Landis parece ser um cineasta feliz. “Ganhei muito dinheiro com os meus filmes e posso-me dar ao luxo de não trabalhar. O problema é que continuo a ter prazer no processo de rodagem e quero trabalhar, ainda que os filmes que eu quero fazer não sejam os que os estúdios querem. Teria de ser cinema independente. No entanto faço muita publicidade e videoclips que é muito bem pago e o meu nome não aparece. Isso é bom porque eles depois arranjam forma de estragar aquilo tudo.”


Quando se lhe pergunta se o cinema de antigamente era mais complexo e as novas tecnologias facilitam o trabalho, Landis tem uma perspectiva curiosa “o cinema é sempre cinema. Há uma câmara apoiada em paus, os actores à frente dela, e uma equipa técnica atrás. Mas é claro que o cinema de hoje é muito mais barato de fazer, mas muito difícil de distribuir”.


Tem muito orgulho na carreira do filho, Max Landis, mas não se associa às opções e aos êxitos do filho. Actualmente ele está em Vancouver como showrunner de “Dirk Gently”, uma série baseada em Douglas Adams. “O único conselho que lhe dei é que o argumento tem de ser bom. Mesmo que os realizadores depois o estraguem como aconteceu com o argumento do Frankenstein que foi dos melhores que já li e o filme não tem nada a ver, é horrível”.


Questionado sobre se existem diferenças entre o cinema de Hollywood e o europeu, Landis não hesita em responder “o cinema é global. O que chamam Hollywood é feito de cineastas como Hitchcock, Lubitsch, Wilder, e actrizes como Ingrid Bergman. Ou recentemente o argumento do meu filho ‘American Ultra’ que foi dirigido por um iraniano [Nima Nourizadeh], vejam lá, ou ‘Mr. Right’ que foi realizado por um espanhol [Paco Cabezas]. Hollywood hoje em dia é feito com um pouco de Irão e um pouco de Espanha. No fundo, os cineastas como os pintores, os artistas são todos iguais.”


Se são fãs de John Landis como realizador, podem aproveitar também para ver a sua faceta de actor em “Tales of Halloween”. Quando elogiado dizendo que é o centro das atenções da antologia, ri com gosto, mas confessa que sente muita pressão diante das câmaras e “ainda não vi o filme. Só o fiz porque conheço o realizador Ryan Schifrin desde que este era uma criança”.

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