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Crítica a "Morto Não Fala"

el  domingo, 09 setembro 2018 10:30 Escrito por 

O MOTELx voltou a apresentar cinema de terror brasileiro. Tinha notado algumas ausências de peso ao longo dos anos, mas pelos vistos o último cinema do país irmão a passar neste evento tinha sido na retrospectiva de Mojica Marins. Desta vez não perderam tempo e foram dos primeiros festivais a passar a obra de Dennison Ramalho. Uma excelente aposta que decerto será imitada por muitos nos próximos meses. Esta primeira longa é já uma confirmação.

Stênio trabalha no turno nocturno da morgue. Entre cortar cadáveres, cosê-los e lavá-los, Stênio ainda tem tempo para falar com eles. Isso pode parecer estranho. A única coisa mais estranha é que eles respondem. O técnico tem o estranho poder de conseguir comunicar com os mortos. O seu poder está escondido de todos e normalmente é usado para o bem – descobrir a identidade dos falecidos – mas um dia ele passa uma informação que não devia. O reino dos mortos fica profundamente aborrecido com a atitude e uma vítima desse deslize vai-se assegurar que a vingança é servida.

O que podia ser o mote para vários filmes fantásticos interessantes (e que já deu origem a algumas séries), neste filme é apenas um detalhe. Stênio não é um super-humano. Ele recebe informação dos mortos. Isso dá pesadelos, mas não ajuda no mundo real e mesmo contra os mortos só permite algum diálogo. Não, apesar do título, “Morto Não Fala” não é sobre conversas. É um filme de fantasmas com todos os sustos e twists a que temos direito. O mundo real nem sempre se coaduna a esse conteúdo, mas o Brasil, com tanto de mágico como disfuncional, é perfeito. Tem mortes com fartura, tem acidentes naturais, tem muitos olhos fechados nos cargos de topo. E mais abaixo tem gente descontraída, gente boa, gente exaltada, todo um leque de personagens à espera de serem trabalhadas. Foi o que fez Marco de Castro. Este ex-jornalista criminal pegou em peças do que foi ouvindo na sua carreira profissional, juntou alguma imaginação, e deu origem a um conto que Ramalho trabalhou por alguns anos em diferentes formatos até dar uma longa-metragem.

No elenco a figura de proa é Daniel de Oliveira como o ouvinte do além, um actor com vasta carreira que está confortável nesta complicada personagem. Encontramos ainda Fabiula Nascimento como a esposa descontente, que nos faz sentir emoções diversificadas. Tanto se adora como se odeia. Bianca Comparato de “3%” tem um papel secundário de maior importância do que se poderia esperar pela abertura. A sua personagem vai crescendo, sendo por momentos o único ponto de racionalidade que temos para nos segurarmos. Entre estes profissionais e os artistas infantis, o filme está muito bem entregue. Mas aqui não só as caras dos vivos interessam. A caracterização dos mortos é igualmente convincente. Tem um estilo muito próprio, que enoja e atraí simultaneamente.

Como muitos outros títulos deste género, tem algumas falhas imperdoáveis. Como o fantasma numa noite ser tão incómodo que não se pode estar em casa, para durante as duas noites seguintes se esquecerem da assombração. Ou objetos desaparecidos surgirem passados uns dias. Ou uma pessoa que devia estar presa/suspensa/de licença continuar a trabalhar sem haver qualquer comentário. Bem, esse ponto pode ser o Brasil a ser Brasil. O resto são formas preguiçosas de sossegar o espectador antes da próxima volta na montanha-russa de emoções. Não fosse isso, e teríamos aqui um fenómeno de culto garantido. Para compensar, "Morto Não Fala" tem cenas que são bem originais.

No geral é um filme muito competente, que espelha a sociedade brasileira no seu pior sem complexos. Cruza alguns géneros e permite passar uns bons momentos. Isso se gostarem de ver corpos mutilados, esquartejados, crianças a ficarem traumatizadas para a vida e mortes em vários formatos. Dennison Ramalho chegou com ideias novas e vontade de fazer filmes. Esperemos que fique no terror por muitos anos.

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