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Crítica a "Hagazussa"

el  sexta, 07 setembro 2018 11:00 Escrito por 

Os monstros que a sociedade cria.

Como diz o ditado, eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem. Esta figura da mitologia popular surgiu para etiquetar as mulheres que não se sujeitavam às normas da sociedade. Primeiro as que não queriam homens, depois as que respondiam torto, depois as que olhavam de lado, até às que recusavam os avanços dos homens ou que eram vistas como concorrência por outras mulheres. Era só espalhar o boato e assim que chovesse de mais ou de menos, que um cordeiro fosse comido por lobos, ou alguém se constipasse, ouvia-se um “foi a bruxa”. à segunda ou terceira, lá saíam as forquilhas e tochas em busca de sangue. Daí até serem preventivamente afogadas, queimadas, apedrejadas, enforcadas e tudo mais, foi um pequeno passo. A Igreja apoiou pois era mais um inimigo das trevas para combater e mais um motivo para pessoas amedrontadas procurarem refúgio nas paredes e nas palavras da instituição. Todos os países têm a sua visão das bruxas, e ainda que os galegos as chamem algo carinhosamente de meigas (magas), raramente são positivas. Lukas Feigelfeld é austríaco, mas tem uma visão internacional. Filmou nos Alpes com dinheiro alemão, uma história com algo de eslovaco e húngaro.

Albrun é apenas uma criança. Vive com a mãe numa cabana isolada. Não sabemos há quanto tempo lá estão, mas os habitantes locais não gostam nada delas. Chamam-nas de bruxas. Quando a mãe morre, o ciclo parece repetir-se e Albrun anos depois vê-se sozinha com um bebé nos braços. Só que ao contrário da mãe tenta relacionar-se com os vizinhos. Vender o leite das suas cabras. Faz uma amiga e até é recebida pelo padre. Ela faz o que pode. Só que a sociedade não consegue um lugar para uma bruxa, filha de outra bruxa. Albrun vai começar a odiar todos e a esforçar-se por lhes causar dano. Agora é que vão ver o que é o mal puro.

O filme aposta muito na fotografia e na banda sonora para provocar reacções. Se o início era mais pausado, dando um enquadramento histórico algo vago, e tinha diálogos entre a mãe e a criança, a maioria do filme é muda. Foram as conversas que destruíram a psique de Albrun. Quando se cala, passa literalmente das palavras à acção. São quatro capítulos – Sombras, Cornos, Sangue, Fogo - e algures no segundo calam-se. Não há qualquer palavra humana. Gritos e onomatopeias sim, mas nada que seja comunicação. Cada capítulo é visualmente mais provocador que o anterior. Desde cobras e esventramentos a delírios alucinogénios, para não referir o pior, “Hagazussa” vai chocar muito. Se for visto depois do almoço, pode causar um profundo desconforto estomacal que obriga a abandonar a sala. Estão avisados.

É um filme complicado de ver. Tem uma mensagem clara e vários pontos em aberto que Feigelfeld admitiu em palco serem para dar liberdade de interpretação. Enquanto não admitirmos que há muita coisa que desconhecemos, só assumimos para facilitar, haverá pessoas incompreendidas. É importante começarmos a lidar com informação incompleta para não estereotiparmos o que é diferente. É um filme ao qual se deve dar uma oportunidade. Não o tenciono rever, mas ficará comigo por muito tempo.

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