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Motelx 2018: "Liverleaf" (2018) e "Mon Mon Mon Monsters" (2017)

el  quinta, 06 setembro 2018 11:40 Escrito por 

O dia da Retribuição.

O primeiro dia da 12ª Edição do Motelx pode ter arrancado com a antecipadíssima “The Nun” mas os menos badalados “Liverleaf”; e “Mon Mon Mon Monsters” podem ter de mansinho roubado o show.

Ambos focam o “Bullying” uma temática tão caro à população em idade escolar. “Liverleaf” segue Haruka Nozaki (Anna Yamada), uma aluna oriunda de Tóquio que se muda para uma pequena vila rural após o pai aceitar uma oferta de emprego. Ela começa a sofrer uma perseguição brutal de Taeko (Rinka Otani), a miúda mais popular da turma e dos seus amigos por influência desta. Haruka, miúda de trato doce não resiste às investidas diabólicas dos colegas. Afinal, nem tudo é mau: o colega de turma Mitsuru Aiba (Hiroya Shimizu), que demonstra um fascínio pela fotografia e flores primaveris “liverleaf” está interessado nela e faltam apenas uns meses até ao fim do liceu. Seria para aguentar até aos rufias cometerem uma transgressão imperdoável. Haruka decide por fim retorquir.

O filme taiwanês “Mon Mon Mon Monsters” acompanha Shu-wei (Deng Yu-kai) que é o alvo de Ren-hao (Kent Tsai), os seus dois amigos feitos à medida dos seus caprichos cruéis e a namorada daquele, Si-hua (Bonnie Liang). A mais recente maldade que inclui o roubo de dinheiro da turma coloca os 4 rapazes a cumprir serviço comunitário junto da comunidade sénior. É nesse trabalho que o trio de malfeitores conhece um velho veterano catatónico que supõem ser rico. Decidem assaltá-lo e arrastam Shu-wei para os ajudar. Durante o evento acabam por se deparar com um monstro canibal que capturam. Sempre sob a influência de Ren-hao, mantêm o monstro captivo que se torna a sua nova vítima com consequências nefastas. Entretanto, em liberdade permanece a companheira da criatura que vai fazer de tudo para a recuperar.

Liverleaf” e “Mon Mon Mon Monsters” representam duas escolas de cinema diferentes. O cinema japonês é mais contemplativo, enquanto o de Taiwan parece por vezes funcionar sob o efeito de esteroides. No entanto, a abordagem ao tema é similar. Ambos desenvolvem-se em redor da vítima, de inicio inocente e que é torturada física e mentalmente até já restar pouco de humanidade nela e nos agressores. Os adultos são acessórios num mundo em que as pequenas tragédias quotidianas e dramas pessoais mesquinhos é que contam. O melodrama de um amor não correspondido ou a tentativa de passar incólume perante pares agressores ocupam todo o espaço mental. O mais triste é a indiferença cruel dos que detêm a autoridade e tomam a decisão consciente de não agir com efeitos nefastos.

Tanto “Liverleaf” como “Mon Mon Mon Monsters” espelham essa realidade para um efeito brutal. Minami (Aki Morita) é o arquétipo da professora que sofre ela própria de bullying e está satisfeita em deixar que os alunos se desentendam por si desde que não lhe provoque transtorno pessoal. Já a professora de Taiwan invoca a si uma religiosidade budista que é no mínimo hipócrita. A espelhar o facto de a realidade ser injusta apenas uma recebe a retribuição pelo seu comportamento, cabendo à audiência o julgamento do castigo infligido. Os pais, quando existem são tão desajustados e impotentes quanto os alunos. Desde o pai alcoólico, à mãe-galinha desesperada por afecto, clichés no tema bullying.

O momento de ruptura é mais evidente em “Liverleaf”. A vítima torna-se agressor após um momento-chave ainda que a sua imoralidade não seja tão evidente. “Liverleaf” não foge ao gore. Abraça-o em toda a plenitude. É tão gráfico e o primeiro esguicho de sangue foi tão catártico que a audiência do Motelx soltou gargalhadas e bateu palmas. O acto era horrendo, mas deu prazer pelo sentido de justiça que trouxe. Membros estropiados, cortes profundos na carne, traumas oculares graves, vale tudo. Manchas vermelhas de sangue na neve. É evidente o binómio inocência vs pecado, na mudança de vestuário de Haruka para o tom vermelho sinalizador de morte, da paixão do sangue em contraste com a anterior pureza do branco e da neve.

A violência explícita de “Mon Mon Mon Monsters” é mais gradual. Há todo um crescendo na psique de Shu-wei enquanto passa pelas realizações de que tem ou não amigos, de que poderá ou não estar livre de novas sevícias, de que poderá eventualmente tomar as rédeas do seu destino. A sua personalidade é mais dúbia porque que ele tem a perfeita noção que existindo um novo alvo de agressão no caso, um monstro canibal, ele terá alguma paz. Giddens Ko, realizador e argumentista no género de terror, não poupa esforços na demonstração da depravidade dos colegas de Shu-wei. Ao fim de um tempo parece tortura assistir aos seus actos mas mais inteligentes é mostrar como os rufias são capazes de amar ou ter humor e assim as suas acções podem ser minoradas na percepção colectiva: “Eles não maus rapazes. Estão apenas a divertir-se”: é o que se diz quando armadilham a cadeira de um colega, até a partida se repetir vezes demais. Quando a brutalidade vem ao seu encontro esta vem a eito, na pele de um monstro canibal que procura a sua metade e está disposto a deixar uma pilha de cadáveres até a encontrar. A esse propósito, procurem aqui, num filme que já vai longo, a melhor sequência do festival com um encontro entre um autocarro cheio de adolescentes e um monstro (Eugenie Liu) sedento de sangue. Mas não há qualquer engano, nada mais existe além dos seus desejos egoístas. O objectivo é semear o caos. Os danos colaterais são acessórios.

Liverleaf” deixa espaço à contrição de pecados, à renovação. Após um Inverno rigoroso virá sempre uma Primavera. Já “Mon Mon Mon Monsters” pode ser dedicado a todos os cépticos. Acredita que todos podem ser monstros, bastando apenas ter a oportunidade para tal. A redenção é apenas uma miragem. Ambos interessantes, ambos imperfeitos, mas ambos dignos de um visionamento. Como se sentem hoje: esperançosos ou cépticos?

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