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Crítica a "Cold Skin"

el  quinta, 06 setembro 2018 10:30 Escrito por 

FC disfarçada de Terror numa história náutica.

Que o cinema fantástico espanhol não tem rival, é sabido há muito. A sua produção de excelência, as equipas técnicas altamente qualificadas, os actores de renome mundial, vários realizadores que conquistaram o mundo e argumentistas que, inicialmente associados a esses realizadores, mas que depressa passaram a trabalhar com todos os grandes, deram alicerces para uma indústria tão grande como o seu festival de referência em Sitges. Um ponto que normalmente se descura é o material de base que dá origem a esses filmes. Espanha também é rica em autores literários que cresceram no fantástico e agora estão a alimentar essa indústria como se vê na anglofonia. Albert Sánchez Piñol ainda está no início, mas é já um desses nomes. "Cold Skin" foi um livro rico em detalhes que Jesús Olmo (28 Weeks Later) e Eron Sheeran (The Divide) transformaram em argumento sem dificuldade. Xavier Gens ("Frontiére(s)") só teve de dar forma ao filme.


Esta produção espanhola foi escolher cuidadosamente a sua equipa. Na componente técnica o domínio nacional é evidente, mas no resto souberam construir um grupo heterogéneo, propício a esta epopeia náutica sem nacionalidade. Gens é francês. Olmo espanhol. Sheeran australiano. No elenco temos um irlandês, um inglês e uma espanhola. A rodagem foi na desolada paisagem de Lanzarote que tanto serve para planetas alienígenas como ilhas assustadoras. Na verdade, só sabe que os espanhóis estão envolvidos quem olhar para os créditos. "Cold Skin" é uma história universal que encaixaria perfeitamente nas lendas marítimas de todos os povos que enfrentaram as ondas.

A história é sobre Friend, um meteorologista que é colocado numa ilha isolada do mundo. A sua missão de um ano é medir os ventos e demais actividades meteorológicas para servir de guia futuro aos navios. Terá como única companhia o faroleiro Gruner, um ermita algo louco. E o colega anterior morreu de tifo, o que não facilita a passagem de informação ou motiva. Mas Friend não desmotiva só com isso. Até que a noite chega. A ilha não gosta dos ocupantes e tem uma forma muito pouco subtil de o dizer. Gruner está fortificado no farol, mas Friend na casa do cientista não tem boas probabilidades. Quando Friend acha que nada mais o pode surpreender, descobre que Gruner esconde uma mascote estranha. Um hipnotizante ser marinho antropomórfico e azul.
Já estamos todos um bocado fartos dos seres azuis que um certo filme nos deu. Gens sabia disso pelo que construiu a narrativa em torno dos humanos, explorando questões como o isolamento, as adaptações ao meio e aquilo que se considerava humanidade. Se tivesse lugar noutro planeta seria um território fértil para ficção-científica que aqui se disfarça de ouros géneros. Salta entre o drama de época e o fantástico, cortando regularmente para o terror quando a narrativa podia começar a definhar devido à carga emocional e ao stress. Há um mistério que vai sendo bem gerido, há terror, há uma mini-guerra. Não faltam elementos para manter o espectador entretido enquanto lhe passa uma mensagem muito importante.

As exigências técnicas eram imensas. Manter Aura Garrido viva, nua naquele fato alienígena dentro de águas geladas. Captar imagens com uma luz diária invulgar e uma noite tenebrosa. Esconder adereços na paisagem lúgubre da ilha. A pouca densidade populacional também exigiu muito aos actores. Sendo apenas três, as relações entre eles são de profundo significado e com um impacto imediato na sua vida e capacidade de sobrevivência. A isso junta-se que Garrido não fala. Pelo menos não com a boca. São os seus olhos que fazem a comunicação. O nosso conhecido Ray Stevenson é um Gruner intenso e David Oakes como Friend tem o habitual protagonista desenxabido que granjeia o apoio do público porque os seus valores são os correctos. E de vez em quando faz o que é preciso ser feito.


"Cold Skin" é um filme que não funciona com o grande público. É preciso estar confortável com muitos temas desconfortáveis. Mas se for um público de FC com tolerância para terror, aí é uma conversa bem diferente. É um dos grandes títulos do ano em termos de conteúdo, mensagem e produção. Se tivesse um toquezinho de blockbuster para cativar mais gente, perderia a essência. Deixemos assim. Escondido do mundo, nas prateleiras dos fãs.

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