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Crítica a "Revenge"

el  quinta, 09 agosto 2018 07:00 Escrito por 

Uma italiana que nos faz perder a cabeça (literalmente).

O cinema feminista tem vindo a ganhar força nos últimos anos. O cinema fantástico como é habitual deu o mote e foi o primeiro onde a mulher ganhou protagonismo relevante. Por vezes de formas infelizes, mas noutras de formas bem eficazes. O thriller sempre foi muito receptivo a ter mulheres no papel principal e no ano passado foi quase nauseante o número de filmes de género que aderiram à tendência. "Revenge" chega tarde às salas, mas é um dos melhores para representar a tendência. Escrito por uma mulher. Realizado por uma mulher. Protagonizado por uma mulher. Com uma visão simplista (mas não errada) dos homens e uma história que não sendo nova, precisava deste novo olhar. "Revenge" como o nome sugere segue as pisadas de muitas outras mulheres que disseram “basta!” e se vingaram dos homens que as menosprezaram, usaram, maltrataram, violaram e deixaram como mortas. Entre as produções americanas alguns títulos icónicos de terror como "Last House on the Left" e "The Hills Have Eyes" de Craven, ou "I Spit on Your Grave" de Zarchi pegaram no tema nos distantes anos 70. A Europa não era tão dada a essa exploitation. O cinema foi evoluindo e notou-se pelos remakes/sequelas do século XXI que a visão tinha mudado ligeiramente.

As final girls pensadas pelos icónicos Craven, Carpenter e Hooper até aos mais recentes Ti West e Adam Green, fizeram frente a tudo e todos. Na Europa visionários como James Watkins, Pascal Laugier, Balagueró/Plaza já sabiam que as mulheres eram o futuro do terror. Só faltava o toque feminino atrás das câmaras. Curiosamente as grandes realizadoras do terror tiveram sucesso principalmente com personagens masculinas. Quando investem em protagonistas do seu género é em thrillers psicológicos de menor visibilidade. A francesa Coralie Fargeat antecipando os riscos e para mais tratando-se da sua primeira longa, manteve o projecto pequeno. Apenas quatro actores, todos europeus e de salários razoáveis. Matilda Lutz tinha acabado de saltar para a fama como a nova protagonista da saga "Rings" e combinava o ar angelical com a resiliência necessária para um papel muito físico e psicologicamente desgastante.

O filme começa como tantos outros. Aqui os telemóveis não são um problema a exigir solução criativa, mas é importante o isolamento por isso estão num terreno de caça, sem ninguém por perto. Três homens vão para as férias anuais de caça. Um deles chegou antes com a amante e esperava poder passar um tempo a sós antes dos sócios aparecerem, só que eles antecipam a chegada e descobrem o seu segredo. O convívio ao início corre bem, mas depressa descarrila. O que pode fazer uma jovem mulher contra três caçadores experientes? Muito.

No início Jen surge como uma conquista, uma sonhadora que está com um homem mais velho sem pensar no futuro da relação. Em seguida revela o seu lado mais sedutor e simultaneamente que é uma jovem em busca de diversão e que não pensa nas consequências. Após isso vem o seu lado mais frágil. O animal ferido e em pânico a correr para sobreviver. Quando o filme está a meio há quase que uma transformação e liberta a guerreira que tem em si. Mas já voltaremos a esse ponto de viragem.

O argumento é sólido, não perdendo tempo em cenas penosas, mas construindo uma narrativa apelativa e bastante credível para o género. Há um hiato temporal mal explicado, tudo o resto é compreensível e tem algumas surpresas agradáveis. Fui com poucas expectativas e rapidamente as aumentei. Na concretização há um excesso de sangue perdido entre outras falhas do ponto de vista médico, mas o público gosta de muito sangue e vísceras. Visualmente “Revenge” tem cores fortes e quentes desde o início, ao estilo francês. Para a banda sonora aproximou-se mais do italiano. Este cruzamento de nacionalidades é também notado nas personagens. Eles são franceses e importantes no seu pequeno mundo. Ela é uma italiana com o sonho de ir para Los Angeles e conquistar o mundo. Uma barreira linguística e cultural ergue-se entre eles. Quando os seus instintos primitivos se libertam, não precisam de palavras o que dá ao filme uma fluidez deveras interessante. Em especial quando Lutz entra em modo bad ass. Alguém lhe ofereça um papel em filmes de acção! Fargeat tem o seu apogeu nessa fase de transformação com duas sequências brilhantes. São a prova que quem vem das curtas sabe fazer poucos minutos contar. Já antes tinha dado sinais disso ao brincar com os animais, mas naqueles talvez dez minutos usa mesmo todos os trunfos. Uma é quando a nova Jen acorda. Quer-se vingar, mas está traumatizada. Aquela cena define a personagem melhor que qualquer outra antes. Brinca com as expectativas do espectador. Tão intenso que quase nem se nota no excelente trabalho de fotografia que está a ser feito. A segunda é logo seguida quando temos uma visão da nova Jen no meio do deserto. Os vários planos do seu corpo mutilado revelam uma lutadora, uma guerreira num micro-cosmos onde as regras da sociedade já não se aplicam. É só aí que começa a batalha das vontades. Quando a humanidade desaparece e os corpos se viram para o lado animal, em papéis alternados de presa e predador. E os brincos cor-de-rosa vão balançando para nos recordar que horas antes Jen era uma rapariga normal.

"Revenge" não tinha uma grande história. Não seria revolucionário. Mas ao longo de quase duas horas mostra que não é preciso muito dinheiro para fazer um filme competente. Que não é preciso um homem como protagonista para fazer um filme com adrenalina. Que uma realizadora pode ter simultaneamente uma vertente artística e uma crueldade aliciante. Lutz confirma ser capaz de muito mais do que tem feito por terras americanas e Fargeat tem um belo cartão-de-visita para lhe começarem a dar argumentos e orçamentos a sério.

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