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Crítica a "Uma Vida Sublime"

el  segunda, 30 julho 2018 11:00 Escrito por 

Em Portugal também se fazem grandes thrillers.

Uma Vida Sublime

Luís Diogo tem sido um argumentista consistente ao longo dos anos. Desde a surpresa "A Bomba" que em 2002 falava dos reality shows até "Gelo" em 2016, as suas ideias eram maiores do que a indústria do país onde seriam filmados. Em "Pecado Fatal" escreveu algo mais ajustado à realidade onde trabalhava. Um drama com três personagens e sem precisar de efeitos ou localizações elaboradas. Acabou por o dirigir como “prémio” pela venda do argumento de "Gelo". O filme não chegou longe com o público, mas o realizador causou boa impressão. Estávamos curiosos com o que viria a seguir. Em "Uma Vida Sublime" volta a cometer o mesmo erro e a escrever algo incomportável para Portugal.

A história é muito simples. De um lado temos um médico bondoso que trata as pessoas gratuitamente e gosta de lhes dar boas notícias. Praticamente um santo. Do outro um psicopata que rapta pessoas e a tortura de uma forma muito peculiar: privando-as dos sentidos. Um autêntico demónio. Como seria de esperar, o Dr Jekyll e o Mr. Hyde são uma só pessoa. Ele tem como missão humanitária fazer as pessoas felizes, ainda que uma das formas não pareça muito correcta.

Luís Diogo regressa parcialmente ao que conhece. A vida familiar, as localizações de Paços de Ferreira e Castelo Branco, a equipa técnica… tudo nos lembra filmes anteriores. Essa familiaridade faz com que o filme seja de visionamento mais fácil, como se fosse mais um episódio de uma série que vemos regularmente. Todavia, logo numa das primeiras cenas somos confrontados com o maior problema do filme: os actores secundários. Sem paninhos quentes digo que haverá dez actores decentes no filme. O resto são amadores que não sabem dizer uma frase de forma convincente. Felizmente para nós, eles estão em papéis mínimos que não interessam para a história. Quebram a ilusão, mas não arruínam o filme. O actor Eric da Silva leva o filme às costas sozinho, mas é bem mais convincente como psicopata do que como médico. Só quando ambos se mesclam é que o médico tem uma performance de topo. Em menor grau, a performance de Rui Oliveira é também merecedora de aplausos, transitando entre diversas expressões que espelham as sensações que o espectador esperaria. A estreante Susie Filipe convence e é com agrado que verifico que já tem outros projectos em carteira para estreia breve. E antes do filme terminar ainda surge Paulo Calatré com uma oportunidade de brilhar.

O filme tem um bom equilíbrio entre a pacata vida familiar dos sujeitos e as situações extremas do cativeiro. Tem uma história interessante, com uma mensagem, que foi bem explorada. Só precisava de melhores actores e melhor público pois, para um thriller nacional, Portugal não é lugar onde tenha resultados como se pode imaginar. Foi feito por uma ninharia e vai render uma ninharia. Se o filme fosse coreano teria um orçamento em condições, um elenco melhor, teria sido ainda mais ousado na violência psicológica, teria estreado com o apoio do marketing, seria logo marcado como um título imperdível e faria o roteiro dos festivais do fantástico. Assim, é tratado como um filme de autor do exótico país que é Portugal. Desencontrado do seu público e do sucesso em bilheteiras. Por favor, alguém que contrate o realizador para fazer um remake americano! O mundo tem de ver isto com um orçamento a sério.

Uma nota relevante apontada pelo realizador quando expressei a minha frustração com as interpretações é que Eric da Silva em seis meses venceu mais prémios internacionais de interpretação do que provavelmente qualquer outro actor nacional por um só filme. Nesse ponto concordo. A direcção de actores é de topo como tudo na realização. O problema é que sem orçamento não se consegue ter um elenco em condições e “Uma Vida Sublime” foi feito com um orçamento de curta-metragem. Apesar dessa falha isolada, é ainda um dos poucos títulos imperdíveis do cinema nacional em 2018 e dos melhores desta década.

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