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Crítica a "Ready Player One"

el  sábado, 07 abril 2018 18:45 Escrito por 

Quando os opostos se atraem.

Num espaço de poucas décadas a nossa sociedade mudou muito. O cinema deixou de ser uma forma de arte para se tornar num mecanismo de dinheiro fácil que adapta obras literárias. Enquanto nos anos 70 e 80 tínhamos diferentes formas de arte, hoje em dia só ligam aos computadores. Portanto nada como um filme que é uma homenagem aos anos dessa deliciosa nostalgia, ao mesmo tempo que é um alerta para os nossos tempos conturbados e o futuro que se aproxima a passos largos. Que tão depressa se inspira em grandes obras cinematográficas como em videojogos quase desconhecidos. Será o filme mais louco desde “Scott Pilgrim vs. The World” e mesmo tendo um pouco de tudo em mais de duas horas, ainda sabe a pouco e podia ter demorado horas mais.

Para coordenar um projecto tão complexo e variado, seria preciso um realizador capaz de brincar e ombrear com Bird, Zemeckis e Kubrick nos seus territórios favoritos, assim como trazer os géneros kaiju e mecha para o ocidente. Alguém tão perspicaz da comédia e romance como do terror e da guerra. Portanto, o homem que nos trouxe filmes épicos de acção, de ficção-científica, de época, aventuras, guerras, dramas e comédias. Talvez não o melhor realizador dos nossos tempos, mas o mais versátil do último século e um nome incontornável dos anos 80, Steven Spielberg.

No decorrer do filme apresenta-nos uma sociedade distópica onde a realidade virtual corrompeu a outra realidade. Algo que receamos desnecessariamente com Second Life e Google Glasses e lentamente se vai concretizando em MineCraft. Um génio criou o OASIS, um universo digital onde tudo é possível e as pessoas enfrentam desafios e-mortais que os podem fazer perder tudo o que têm no virtual. Para melhorarem as suas hipóteses, gastam os seus bens reais e o seu tempo, deixando que a sua única existência se esvaia por entre as vidas gastas. Wade é uma dessas pessoas. Um adolescente com muito tempo livre que foge de uma realidade cruel para um jogo onde não é fantástico, mas onde se vai safando. Um dia o seu destino cruza-se com Art3mis, uma lendária jogadora que tem como única missão arruinar os mercenários ao serviço da IOI, uma corporação que lucra com a escravatura de forma legal. É que há vários anos que o OASIS está à espera de quem o gira desde a morte do criador e alguns jogos em alguns planetas permitem encontrar as três chaves que dão acesso ao grande prémio de controlar o jogo. Art3mis, Parzival (o avatar de Wade) assim Aech, Sho e Daito são caçadores profissionais desse tesouro como muitos outros milhões e estão todos a zero no que diz respeito a pistas. Até que um dia, a primeira chave é descoberta e a febre recomeça. Enquanto a própria Art3mis avisa Parzival para não confiar em ninguém, incluindo ela própria, a IOI envia todos os seus recursos para 3 missões: descobrir as chaves, eliminar Parzival e eliminar Wade. Uma coisa é saber mover-se no jogo, mas quais as probabilidades de um adolescente sozinho numa guerra real contra a segunda maior empresa do planeta?

Enquanto o livro era mais vocacionado para os retrogamers, o filme consegue um complicado equilíbrio entre cinema, videojogos, jogos de tabuleiro, música e toda a cultura pop. Mesmo sendo limitado pelas empresas egoístas que se recusaram a ceder personagens icónicas da nossa infância/juventude (sendo Star Wars e Mario Bros os exemplos mais óbvios), atingiu um variado leque de conteúdos e situações. Se mais estivessem disponíveis, mais seriam usadas certamente. Mas mesmo sem isso, a cena de Kubrick por si só justifica que se veja o filme, Pessoas nascidas depois de 1985 vão perder a maioria das referências e terão de se contentar com a divertida aventura em dois mundos. O que é mais do que suficiente para agradar a todos os públicos. Mas quem perceber todas as indirectas, as referências e as imagens que passam a alta velocidade, adorará esta colectânea de uma outra era. Pelo trailer demasiado revelador já dá para saber a história, mas ver o filme é uma experiência avassaladora. Com mais direitos e mais uma hora de acção seria algo épico e inesquecível.

Um dos pontos fortes foi a aposta numa nova geração de actores, evitando a tentação de usar os nomes que fizeram parte da era lendária, mas a devida inclusão de um fan boy na pessoa de Simon Pegg.

Quanto à pertinência do filme, adiado devido à urgência de fazer "The Post", foi simplesmente perfeita. Mais importante do que atacar Nixon como alerta para o governo Trump, foi ter este filme em salas quando rebentou o escândalo Facebook. As pessoas dão demasiada informação, demasiado tempo, demasiado de si, ao que devia ser apenas um divertimento, um entretém. Só a realidade é real e é lá que se deve viver. E para tudo o resto, aplicam-se exactamente as mesmas regras que no tempo do mIRC.

Agora, de volta ao Facebook para ver o que andam a fazer as pessoas que nunca conheci e não querem saber de mim.

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