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Crítica a "The Circle"

el  quinta, 18 maio 2017 11:00 Escrito por 

O futuro está a chegar e não é brilhante.

É irreversível, entrámos na era digital. Um filme estreado no final de Abril alerta-nos para isso de forma discreta. Com um elenco que reúne Emma Watson, Karen Gillan, Tom Hanks e John Boyega, entre outros, “The Círcle” é sobre a sociedade humana, a sociedade digital e em especial sobre a ilusão do fim da privacidade individual.

Tudo começa com Mae, uma jovem praticante de kayak que consegue passar do serviço de atendimento ao cliente nas águas, para a equipa de experiência do cliente da aplicação TruYou, numa empresa gigantesca que tem como sede um enorme complexo circular. Aos poucos a empresa vai conquistando a sua confiança e a sua resistência a fazer parte do ecossistema digital esvanece. Até que Mae é seguida por toda a gente e lentamente o Círculo se prepara para controlar o mundo. Um exagero? Não, apenas uma constatação.

O cinema sempre foi rápido a alertar para os problemas da manipulação de opiniões e os limites da privacidade. Primeiro com “Network” (1976) de Sidney Lumet onde um jornalista tem uma explosão de honestidade em directo e expõe o que está mal no mundo, sendo isso usado para gerar audiências televisivas. Problema abordado novamente em “Nightcrawler”(2014) de Dan Gilroy. O segundo marco foi “The Truman Show” (1998) de Peter Weir onde a televisão explora um indivíduo emitindo secretamente a sua vida 24 horas por dia para todo o mundo. O fim do respeito pela privacidade quando ainda nem se sonhava com os streamings de vídeo na Internet. Pouco depois surgiu “AntiTrust” (2001) de Peter Howitt que combinava o fim da privacidade no início da era digital, com o problema de se entregar o controlo da nossa vida a uma aplicação. Vários outros filmes e séries foram explorando o problema da digitalização, mas a questão só se tornou grave quando o Windows 10 faz uma campanha de lançamento em tudo igual ao Synapse, o produto desse filme. Tinhamos chegado ao momento para o qual o cinema nos tinha alertado. Não foi a Skynet, mas os computadores estavam a tomar conta de tudo. E quem diz Microsoft, diz Google, Facebook e todos os outros. Demos a várias empresas total acesso à nossa vida sem sequer pensar. Porquê? Porque o pediram da forma certa, um pouco de cada vez e sempre dando algo bom em troca. E quando se fosse olhar para trás, já não havia nada a fazer. “Ex Machina” (2014) de Alex Garland frisa isso: um dia uma empresa tecnológica conseguirá dar-nos tudo o que alguma vez sonhamos e não perceberemos que lhe demos os nossos sonhos.

O que é então “The Circle”? Além de ser uma referência óbvia ao edifício futurista da Apple, é um alerta para o poder que estamos a dar às empresas. A personagem de de John Boyega alerta-nos, a de Karen Gillan alerta-nos, a de Emma Watson resiste, e no fim colapsa como todos nós. Um dedo de cada vez, até ter dado a mão, o braço, e todo o corpo. Quem é contra a tecnologia parece lunático, mas quem partilha tudo nas redes sem saber quem vê a troco de quinze minutos de fama, corre muitos mais riscos. Alimentados pelos viciantes números de seguidores e de comentários. Se achamos que já demos tudo, é só esperar mais um pouco até darmos muito mais. Até estarmos num mundo controlado por empresas privadas que começaram por ser um produto cheio de boas intenções.

Como cinema é um produto fraco, precisamente por repetir de forma desleixada o que “AntiTrust” fez bem, só por ter um bom elenco. Teria funcionado como mini-série, repartindo estas várias etapas e trabalhando melhor a aura de mistério por umas quatro ou cinco horas, em vez de atafulhar menos de duas horas com tudo. É muito rápido e tem efeito passageiro, não dizendo nada de novo. Filmes com este tema fazem falta, mas não a este ritmo.

Numa nota, tentem ler os comentários que Mae recebe. Especialmente os desenquadrados são deliciosos. Há seguidores que a adoram os que a detestam, e os que escrevem coisas loucas que vemos constantemente na Internet como “já devia estar a dormir”, “isto é degradante”, “quero-me matar”. Milhares e milhões de comentários que circulam na Internet e ninguém os lê, mas é uma linha filosófica tão variada e útil como mensagens escritas nas portas de casas de banho públicas.

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