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Crítica a "Ghost in the Shell"

el  quarta, 29 março 2017 22:20 Escrito por 

O cyberpunk não morreu. Está melhorado.

Foram precisos quase trinta anos para “Ghost in the Shell” completar o percurso das adaptações e a manga dar lugar ao anime, aos OVA, aos filmes de animação e agora, finalmente, a um filme em imagem real. O realizador escolhido foi uma surpresa, Rupert Sanders, tinha como única longa no currículo Snow White and the Huntsman, que pode ter sido um sucesso comercial, mas não é um épico de acção nem cyberpunk, ou sequer de ficção-científica. Para o papel principal as candidatas não eram muitas e eram caucasianas. Acabou por ficar para Scarlett Johansson, uma especialista em ser sobre-humana e perfeitamente capaz de nos dar uma Major incrível. A polémica do whitewashing sempre que um papel de cor fica para um actor branco faz tanto sentido aqui, como nas adaptações de Godzilla quando se fala sobre os cidadãos pisados que no original são asiáticos e no filme não. É a versão americana, com dinheiro americano e chinês, e usam actores japoneses, mas com protagonistas americanos para um público americano. Quando os japoneses fizerem a sua versão, podem ir ver esse. Neste momento é esta que existe. Deal with it.

Após a sessão de visionamento de 15 minutos do filme há duas semanas, a SciFiWorld obteve convite para a pré-antestreia em IMAX, antecedendo em duas horas e meia quem assistiu na antestreia normal.

O início do filme coloca-nos quase imediatamente no meio da acção e da trama, não se preocupando com a apresentação das personagens. O desconhecimento do espectador é um trunfo da narrativa que vai desenrolando uma manta de retalhos com muitos segredos. Assumindo que não conhecem a história, é sobre Major, a sobrevivente de um ataque terrorista que foi mantida viva graças a um transplante do cérebro para um androide. É o ser mais avançado que existe e utiliza as suas capacidades extraordinárias para combater o crime com a Secção 9 numa sociedade onde os implantes começam a tornar muita gente em ciborgues poderosos. Só que o inimigo que a Secção 9 enfrenta é muito capaz. Utiliza as máquinas como bem deseja e um androide acaba por ser o adversário ideal para quem controla a rede e as máquinas. Será Major apenas mais uma peça neste combate?

Os efeitos digitais que o filme utiliza são surpreendentes. Consegue criar seres artificiais, manipular movimentos desafiando a flexibilidade humana e as leis da física, combinar homens e máquinas de forma homogénea numa sociedade criada do zero. Absolutamente nada a apontar, nem sequer no formato IMAX 3D. Perfeito.

No som somos transportados para os anime com músicas que, se não foram reaproveitadas, foram totalmente inspiradas no que existia. Portanto, um ingrediente já bem testado que só podia funcionar bem.

Quanto às interpretações, Johansson foi uma escolha incrível para o papel, equilibrando o lado de super-mulher com o de alma sem rumo. Juliette Binoche é o coração e consciência da história. Pilou Asbæk é os músculos, Michael Pitt é um fantasma da Ópera desta era digital… Quatro escolhas incríveis. Só Aramaki não funcionou tão bem como seria desejável. Quem conhecer Kitano usará informação passada para ver uma personagem que o filme não nos dá, mas para quem está a entrar agora no universo de “Ghost in the Shell” não funciona como no anime.

Em termos de cenário e construção narrativa estamos perante um problema. Dá vontade de dizer que é o melhor filme cyberpunk do século ainda antes de Villeneuve nos devolver Blade Runner. Se a cidade de dia é futurista, à noite é um mundo completamente diferente, dominado pelas luzes, pela mistura de culturas, pelos seres simbióticos em actividades à margem da lei. Tudo o que se desejaria de um filme destes. As personagens flutuam do “meio-homem, meio-máquina” até ao cem por cento orgânico e o já referido caso de Major: uma alma humana trancada numa concha artificial. A história está construída de forma sólida e prende o espectador. Tem aqueles detalhes humanos que passam despercebidos no visionamento de uma longa-metragem com quase duas horas, mas que fazem um filme ser imortal, como as brincadeiras com gatos e cães, as conversas entre colegas, uma despedida, um reencontro… “Ghost in the Shell” tem tudo para ser inesquecível. Em especial numa era em que Elon Musk quer ligar os cérebros a computadores, a Warner quer voltar a entrar em The Matrix... Os computadores são uma benção que estão a tentar transformar num apetrecho. Tão urgente como implementar as três leis da robótica, esclarecer os direitos das máquinas, a ética das relações homem-máquina, é saber se estamos dispostos a perder a barreira entre o orgânico e o digital. O filme toca em todos os pontos sensíveis, sem se deixar levar por eles. É "Robocop", "I, Robot", "Blade Runner", "A.I." e tudo mais que queiram recorda num só. E ao mesmo tempo é um filme de acção.

Deixemos passar mais algumas semanas para ver se as polémicas não ofuscam a bilheteira de um excelente trabalho. "Ghost in the Shell" dignifica um género (estranhamente) menor onde as comparações com uma obra-prima são inevitáveis, e não tiveram medo de se içarem a esse nível. Bravo.

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