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Crítica a "Snowpiercer"

el  domingo, 03 agosto 2014 13:30 Escrito por 

Elenco de luxo e produção de sonho

 

Passou quase uma década desde que Bong Joon-Ho viu o comic Transperceneige. Enquanto a Moho Film de Park Chan-Wook negociava os direitos, o realizador atingiu a fama internacional com “The Host”. Seguiu-se “Madeo” que lhe deu prémios por todo o globo e desde então (estávamos em 2010) toda a sua atenção esteve na adaptação dessa obra. O tempo só parecerá excessivo até ao momento em que se veja o resultado. “Snowpiercer” não é uma mera viagem de comboio. É uma das mais inteligentes metáforas da humanidade.

 

Quando a nossa espécie tornou o planeta inabitável, os poucos sobreviventes estavam a bordo de um comboio. Um projecto visionário que percorria todo o globo em exactamente um ano e que era completamente autónomo do exterior. O que parecia uma benção, rapidamente provou ser uma maldição pois nesse comboio, como em tudo na vida, havia castas.

Quanto mais à frente, mas importante a pessoa. Enquanto o seu proprietário, Wilford, está sozinho na frente, milhares acumulavam-se na retaguarda. Enquanto na frente se come bifes, nas traseiras são alimentados com barras proteicas. E essa divisão é mantida pela força., através de um exército impiedoso. Obviamente que o povo das traseiras quer um melhor tratamento. Procuram a igualdade. Curtis é o líder e a esperança desse movimento. A sua força e juventude, combinada com a experiência do seu mentor Gilliam, podem nivelar as coisas. As mensagens secretas enviadas por alguém mais à frente, juntas com uma provocação imperdoável, levam a que eles criem uma oportunidade e iniciem a sua marcha lenta rumo às carruagens melhores.

 

A metáfora não está em usarem a força para conquistarem um lugar melhor. Não está em descobrirem a verdade sobre cada um dos níveis e o esquema piramidal em que os humanos devem coexistir. Não está na desolação que é o mundo sem a humanidade, por culpa dessa mesma espécie. Está nos constantes sacrifícios que fazemos por nada. Nas constantes desilusões que a vida nos oferece sarcasticamente. Em como nos atiram à cara que o sistema Orwelliano faz sentido por muito que não queiramos. Está em quando nos começa a retira esperança a cada passo que eles avançam.

 

A melhorar tudo isso, não é um filme americano. Aliás, ter produção asiática foi das melhores coisas que lhe podia ter acontecido. Senão, a pluralidade cultural estaria reduzida a alguns estereótipos, a mistura de idiomas seria entre inglês e castelhano e a variedade racial seria decidida por alguns emigrantes nos EUA. Sendo de um autor vindo de outra sociedade, deu-lhe uma perspectiva completamente diferente e bastante mais real. Uma completa mistura, onde os tradutores portáteis são uma necessidade que impede conversas em tempo real. E no entanto, tudo faz sentido por se terem adaptado e conseguirem conviver e trabalhar em conjunto contra o inimigo comum. Também a nível visual tem algo de distinto. Tons sujos e brilhantes que fazem lembrar as distopias de Jeunet e combinam com a neve exterior. O elenco internacional reunido dispensa comentários.

 

Além desta componente de fantasia com toques de ficção-científica, o terror também marca boa presença. Os combates que se sucedem não têm um estilo específico. Por vezes são exércitos frente-a-frente, por vezes são duelos desarmados, e também há meros massacres. Sangue não falta e as várias mutilações insinuam que tenha havido combates bem piores. Saberemos mais tarde do que se tratou.

 

No seu todo “Snowpiercer” é uma obra complexa. O micro-cosmos exibido é demasiado grande para um modelo linear e estreito - o correcto seria colocar várias carruagens lado a lado, só que então já não seria um comboio - mas de resto a analogia está fenomenal. E se pensarmos que “Metropolis” fez o mesmo dividindo a sociedade em apenas duas camadas, esta visão até é demasiado elaborada.

Cada carruagem causa diferentes emoções e merece algum tempo para ser compreendida. Até pode parecer mal dizer isto, mas é o género de filme que não devia ser visto só em cinema.  Claro que visualmente merece o ecrã grande, mas, pelo menos mais tarde, deve ser visto em casa mesmo antes de dormir, para que os pensamentos que despoleta não se desvaneçam por entre as distracções que surgem sempre pelo caminho. Pois interpretar tudo isto não é tarefa para um cérebro, por muito bom que seja. Só dando liberdade aos sonhos para que explorem as pequenas mensagens é que se pode tentar compreender tudo.

 

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