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Crítica a "The Face of an Angel"

el  quarta, 16 setembro 2015 07:30 Escrito por 

"If you're gonna make a movie, make it a fiction. You cannot tell the truth unless you make it a fiction." 

França pode ter sido o berço do cinema, mas durante umas décadas parecia que a sétima arte se tinha mudado para Itália. Cineastas como De Sica, Visconti, Rossellini, Antonioni, Fellini e Pasolini marcaram não só a sua geração, como a forma de vermos o cinema. Os anos passaram e muitos outros se seguiram como Leone, Bertolucci, Benigni, Tornatore e Moretti, todos capazes de nos fazerem sonhar. E nem vale a pena falar dos emigrados como Capra e dos descendentes como Scorsese e os Coppola. No terror também houve uma fase com Argento, Fulci, Deodato, Lenzi, Martino, Brass, Lado, Cozzi e os Bava. Só que enquanto no cinema generalista Itália continuou a ter alguns filmes de relevo, no terror apagou-se de forma brusca e só muito ocasionalmente nos dão bom terror. Felizmente há outros cineastas que conseguem encontrar nas profundezas italianas inspiração para os seus filmes de arrepiar. O ano passado foi “Spring” de Aaron Moorhead e Justin Benson, um romance com uns toques de fantástico sobre um americano que se apaixona por uma italiana. Esta semana chega aos cinemas nacionais outra proposta estrangeira, o drama/thriller “The Face of an Angel” de Michael Winterbottom.

Winterbottom é um nómada que faz cinema em vários locais, mas nos últimos anos parece ter-se apaixonado por Itália, com o filme “Genova” e a série “The Trip”, que veio a dar origem ao filme “The Trip to Italy” estreado em Novembro passado em Portugal. “The Face of na Angel” é o seu mais recente trabalho de ficção, ainda que seja baseado em factos reais. Tem crime, tem paranoia e tem alucinações assustadoras pelo que se enquadra no fantástico.

Isto vai parecer um pouco confuso, mas aqui vai. Inspirado no livro escrito por uma jornalista americana exilada em Itália, este filme conta a história de Thomas Lang, um realizador que parte para Roma para se encontrar com uma jornalista americana exilada em Itália de forma a falar com ela e conhecer o crime que a levou a escrever o livro que ele foi contratado para adaptar a cinema. A simpatia da jornalista e a paixão que tem pelo caso, aliados ao charme natural das paisagens de Siena, convencem Thomas a explorar a região e a falar com as pessoas. Enquanto conhece os locais, mais jornalistas e alguns outros que se deixaram conquistar por Itália, Thomas começa a fugir ao objectivo dos produtores. Eles queriam um thriller sobre o homicídio de uma estudante por outra. Ele começa a visualizar um filme filosófico sobre a efemeridade da vida. Lentamente os problemas pessoais e a assombração do crime inexplicável levam-no por uma perigosa espiral de loucura.

Falemos dos anjos que este filme insiste para vermos. O primeiro e que na teoria daria nome ao livro, é Elizabeth, a vítima que partiu demasiado cedo e com demasiada violência. Só a vemos em flashbacks e essa presença etérea e imaterial dá-lhe ainda mais aspecto de anjo. A actriz é Sai Bennett e pode ser vista nas segunda e terceira temporadas de “Mr. Selfridge”. No entanto para as pessoas que assistem ao julgamento, o anjo é Jessica, a bela suspeita do crime. Entre flashbacks e cenas do julgamento, depressa compreendemos que metade do epíteto “bela e mortal” é muito difícil de provar. Só se tem a certeza da sua juventude e como seria injusto passá-la atrás das grades sem a certeza de ser culpada de algo. Desde quando a justiça pode ser cega? A actriz Genevieve Gaunt tem a tarefa ingrata de nos convencer quase sem palavras, apenas com expressões faciais. Estas duas jovens enfrentam a concorrência da cada vez mais falada Cara Delevigne, aqui no papel de uma estudante de arte que trabalha no mesmo bar onde as outras duas trabalharam um ano antes. Thomas, notando as semelhanças, acaba por a levar como guia para a vida nocturna de Siena. Winterbottom teve a difícil tarefa de nos mostrar estas belas jovens sem cair no facilitismo de as tornar em objectos sensuais. Como anjos. E conseguiu-o. Jogando com elementos de suspense e um pouco de terror, dá-nos uma visão respeitosa de todas elas, mesmo quando os rumores e as provas insinuam o contrário.
Num papel mais discreto está Kate Beckinsale, uma figura já bem conhecida dos amantes do fantástico. Aqui faz de autora/jornalista e parece ser quem tem mais imparcialidade entre os vários correspondentes estrangeiros que vigiam o caso. É como que a consciência de Thomas e incute-lhe algum juízo sempre que se começa a desgraçar. Elimina também a necessidade de haver um narrador, dando informações que vindas de outra fonte seriam estranhas. A determinado momento torna-se supérflua e desvanece-se. O papel parece demasiado pequeno.
No papel central temos Daniel Brühl como o realizador perdido. Alternando entre pequena celebridade, sorvedouro de informações, turista, pai e sofredor, não só não compromete o filme, como lhe dá uma autenticidade que com uma estrela mais conceituada não teria funcionado bem.
De referir ainda Valerio Mastandrea como Edoardo, o blogger que tudo sabe. Num papel assustador, representa tudo o que é marginal ou misterioso. Uma peça fundamental para manter a tensão e para mostrar o submundo de Siena.

Ainda que tenha mais ideias do que aquelas que se consegue digerir – e possa até parecer um sinal de crise de meia-idade – é um filme que estruturalmente foi bem desenhado e se aguenta. “The Face of an Angel” é uma obra filosófica que nos acelera o coração com a ocasional cena violenta, mas no fundo pretende apenas que pensemos por um momento e aproveitemos o amor e a juventude, ao mesmo tempo que critica a imprensa sensacionalista e a indústria cinematográfica. Por isso, tal como Thomas, também WInterbottom conseguiu dar-nos um filme sentimentalista disfarçado de algo mais forte. E admite-o várias vezes ao referir-se à tríptica “A Divina Comédia” de Dante Alighieri, outra obra que mescla romance e terror. Talvez o final pudesse ser melhor, mas decerto haverá quem faça uma excelente leitura dele tal como está.

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