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Crítica a "K-Shop"

el  Tuesday, 18 October 2016 22:05 Written by 

Para não ver antes ou depois de comer.

Fazer terror é barato em comparação com outros géneros. Porque enquanto um filme de outro género precisa de algo elaborado para conseguir o efeito pretendido, no terror basta a mera sugestão e está causada alguma sensação desagradável, seja medo ou simples nojo. A primeira longa do realizador Dan Pringle já o colocou num patamar de culto pois “K-Shop” consegue chegar a ambas as sensações com muito pouco. O medo é através da sociedade que mostra. A classe mais baixa de Inglaterra que tem sido mostrada em centenas de filmes ao longo dos anos, atinge aqui um novo mínimo, com celebridades televisivas a abrirem clubes nocturnos, e o álcool a ser gatilho para a enorme decadência nas ruas, onde não é respeito nem pelos outros nem pelo próprio. O terror é conseguido com uma simples cena de culinária e o seu efeito perdura muito depois do fim do filme.

Ziad Abada está em início de carreira e já o vimos em produtos tão variados como “Exodus: Gods and Kings”, “007 Spectre” ou “Tyrant”. Este estudante de Ciências Sociais extravasa na personagem tudo o que está mal no choque entre culturas. Salah é turco, mas vive em Londres há muito e está quase a acabar os seus estudos. Ajuda o pai na loja de kebab, mas, uma noite, o pai é morto por uns bêbedos e Salah tem de tomar as rédeas do negócio. Sendo um estabelecimento de fast food étnica, não tem propriamente cliente regulares, maioritariamente são jovens que vão comer algo antes ou depois da discoteca. Se antes de beberem são maus, então depois são insuportáveis. Uma noite Salah perde a paciência e mata um cliente que estava a merecer. Livra-se das partes moles do corpo triturando-as e fazendo um espeto giratório, e das duras atirando-as à água. Da vez seguinte que recebe clientes desagradáveis serve-lhes o “especial da casa”. E à medida que a sociedade ficam mais decadente e a solidão afecta Salah, o número de vítimas aumenta impunemente, numa escalada que não vai acabar bem.

São quase duas horas a ver a degradação do indivíduo pela dor, pela solidão e pela claustrofobia de ser o único funcionário de um restaurante e não ter interesse em sair para as ruas onde pulula uma sociedade agressiva e louca. Por um lado tememo-lo, por outro respeitamo-lo. As suas vítimas não eram boas pessoas e as ruas ficam melhor sem elas, mas será um doner kebab o melhor destino para essa gente? O gore eficaz no desmembramento dos corpos e na criação de picado a partir dos tecidos é suficiente para dar as voltas ao estômago ao mais resistente dos espectadores e aquele sorriso de prazer quando os serve… Não vejam perto da hora da refeição, e se gostam de kebab, não vejam de todo. Quanto às actuações Ziad Abada é a estrela maior do filme, secundado por uns competentes Reece Noi (Mossador de “Game of Thrones”) e Kristin Atherton e com uma grande cena/monólogo de Darren Morfitt. Scot Williams que tem mais currículo que todos eles juntos tem uma participação especial muito importante para a trama. Mas a realização e o argumento (e Abada, claro) consegue criar uma personagem empática que recolhe simpatia e gere a informação e os sentimentos dos espectadores de forma a apoiarem o menos mau, o vigilante que, da forma mais grotesca possível, faz o que lhe está ao alcance para tornar o mundo melhor. Isso tudo assente nos espaços fechados.

Quando o filme termina fica a sensação que a sociedade chegou a um ponto sem retorno e não adianta lutar pela integração pois algumas pessoas não querem saber (chamar paquistanês a quem faz kebabs é mais ignorância do que racismo). E sem se dar conta, achamos que os sonhos de qualquer um se podem realizar numa sociedade justa. O único problema é a natureza humana.

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