Scifiworld

Crítica a "Desierto"

el  Tuesday, 18 October 2016 19:45 Written by 

uma travessia difícil que ainda fica pior.

O cinema, e em particular o cinema fantástico, deve muito a uns mexicanos a quem chama carinhosamente de “los três amigos del cine”. Todos sabemos que são: Del Toro, Iñárritu e Cuarón. Mas em breve ou alargam o número, ou precisam de especificar nomes próprios pois Cuarón não é só um. Quando o irmão mais novo, Carlos, começou a fazer cinema, ninguém se surpreendeu. E agora é o filho Jonas (co-argumentista de "Gravity") quem se lança na realização.

Enquanto ninguém se lembrar de construir um muro na fronteira e os Estados Unidos parecerem melhor sítio para viver do que o vizinho México, o fenómeno dos “espaldas mojadas” ou imigrantes ilegais, vai ser uma realidade difícil de contornar. Seja pelo Rio Bravo ou em qualquer ponto mal vigiado dos 3200 quilómetros da fronteira em México e Texas. Este filme é sobre uma dessas travessias. Um camião com uma dúzia de imigrantes mexicanos cruza o deserto em busca do ponto de acesso fácil. Quando o motor avaria e o cenário de pedir um reboque com aquela carga não faz sentido, começa uma penosa odisseia a pé pelo deserto para todos os que ainda sonham com chegar aos EUA. Que piora bastante quando um caçador de coelhos e de ilegais os começa a abater num misto de obrigação patriótica e de diversão. É aí que o deserto se torna num inferno, e para isso nem sequer precisou de subir a temperatura.

Estamos numa época complicada para os latinos nos Estados Unidos. A semente do ódio foi plantada e está a germinar de uma forma inacreditável. Felizmente é de mau tom (por enquanto) dizer em voz alta que se concorda com a expulsão dos imigrantes, pelo que o cinema se tem concentrado em atacar esse racismo de todas as formas possíveis. E quando um realizador mexicano e a grande estrela do país, Gael García Bernal, se unem contra o vilão favorito dos fãs de “The Walking Dead”, Jeffrey Dean Morgan, claro que interessa espreitar. “Desierto” tem uma boa premissa, mas gasta os cartuchos todos (literalmente) demasiado cedo, ficando depois reduzido a uma disputa entre poucos indivíduos que não acabará bem para um dos lados. Praticamente uma hora onde um cão, um carro e um rifle dão grande superioridade a um dos lados, enquanto o outro apenas pode tentar fugir e esconder-se.

Com uma crítica discreta aos transportadores de gente sem escrúpulos e à conivência da polícia fronteiriça, “Desierto” tenta focar-se na bondade das pessoas e mostrar o lado humano em vez de fazer o tradicional e mostrar o número de migrações ilegais que são feitas diariamente. Por entre a paisagem monótona e as interpretações sem margem de manobra, tem uma enorme falta de história para o tempo que dura. E entre Bernal a fazer de bonzinho e Morgan a fazer de mauzão, ambos sem qualquer outra faceta, não temos nada de novo.

Era um filme necessário que alerta para uma situação ainda longe de estar resolvida, mas segue um modelo muito padronizado e ainda que não cometa erros, é previsível a ordem de morte das personagens e o seu destino, já visto em vários filmes ao longo de décadas. Juntando isto à ausência de “Gravity” nos prémios de argumento, confirma-se o ponto fraco deste Cuarón que como realizador não se está a sair mal, mas na escrita precisa de ser mais arrojado e inventivo.

Leave a comment

Make sure you enter the (*) required information where indicated. HTML code is not allowed.

Mais Vistos

 

C/ Celso Emilio Ferreiro, 2 - 4°D
36600 Vilagarcía de Arousa
Pontevedra (España)

Redacción: 653.378.415

info@scifiworld.es

Copyright © 2005 - 2022 Scifiworld Entertainment - Desarrollo web: Ático I Creativos