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Crítica a "Swiss Army Man"

el  Sunday, 16 October 2016 15:30 Written by 

Um náufrago, abandonado numa ilhota perdida na imensidão do oceano, decide que já não há esperança. Com umas cordas que começam a apodrecer, trança uma forca improvisada. Mas os fios não aguentam o seu peso e rompem, fazendo com que se estatele na fina areia. Ao levantar-se, observa que a maré trouxe um corpo. O náufrago aproxima-se surpreendido, e descobre que o cadáver não pode conter os gases – nem por cima nem por baixo. Disposto a sair daquele penhasco, decide subir-se para as costas do cadáver e usar as suas flatulências como propulsão.


Com esta introdução tão marciana que começa Swiss Army Man, uma nova reviravolta ao sub-género dos zombies. Ainda que englobá-lo no cinema dos mortos vivos seria pôr limites a um filme que toca temas universais como a solidão, a amizade e o lar. Estamos perante um filme que é muito mais do que possa parecer, inclusivamente mais profundo do que um primeiro visionamento demonstra. É um daqueles filmes que se desfrutam, mas ficam ancorados no inconsciente. Durante as horas e dias posteriores ao visionamento, as cenas voltarão a passar diante dos olhos e descobrirás que estamos ante muito mais do que um filme com piadas de peidos protagonizada por Harry Potter e o miúdo de Little Miss Sunshine.
Os realizadores e autores do guião, Dan Kwan e Daniel Scheirnet, conseguem com este filme uma estreia brilhante que nos faz augurar-lhes um futuro mais que prometedor a seus pés. Com um pulso narrativo que realizadores multi-premiados já com cabelos brancos desejariam, estes realizadores contam-nos uma das maiores histórias de amizade que poderíamos ver no ecrã no que já passou do século. E tudo isso, com a dificuldade de durante 90% da metragem termos apenas dois personagens… e um deles está morto. E são precisamente estas duas personagens, e os actores que os interpretam, os que coroam este maravilhoso filme de ritmo frenético. Paul Dano, habitual já na lista dos melhores actores da sua geração, brinda-nos com outra grande actuação. Ao princípio parecerá que é só um náufrago mais, um Robinson Crusoé de imitação, ou um aprendiz de Tom Hanks. Mas com o passar dos minutos vemos que o seu Hank Thompson – percebeste a piada? - é um personagem com muitíssimas arestas, e Dano revela-nos todas e cada uma delas. E Daniel Radcliffe… o que o actor inglês faz é algo ao alcance de muito poucos. Com uma interpretação sumamente física, o outrora Harry Potter cria Manny, um personagem para recordar. Um morto reanimado que não está seguro, uma dúvida que compartirá com o espectador, da sua própria existência. Um papel que ainda que tenha definitivamente vários momentos cómicos, não é nada caricato e sem dúvida leva o filme a outro nível. Muito mal se teria que deseja a Radcliffe, ou muito cego teria de ser o júri, para que não lhe chovam galardões na próxima temporada de prémios.

Um filme que, também se deve dizer, não é para todos. Seria conveniente recordar que muita gente abandonou a projecção do filme no Festival de Sundance logo ao início. Mas peço um pouco de paciência para aqueles que se atrevam a vê-la. Quando acharem que não aguentam mais uma piada de flatulências aguentem um pouco mais, se ficarem escandalizados por verem as nalgas a Daniel Radcliffe, não saiam logo. Porque o que terão diante de vós não é só um grande filme, mas toda uma experiência das que poucas vezes a sétima arte nos oferece hoje em dia.
Uma longa-metragem na qual, como bem dizem os seus criadores, “Com o primeiro peido rirás, mas o último far-te-á chorar”. Nada mais a acrescentar.

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