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Crítica a "Green Room"

el  Saturday, 17 October 2015 10:50 Written by 

Um grande filme.

"Green Room" supera as expectativas criadas pela fita anterior do seu director, a estupenda "Blue Ruin". Como naquele filme, aqui a acção (as acções) não só define os personagens, mas constrói o discurso: longe da ladainha com a qual tantos cineastas contemporâneos afrontam o cinema negro e o thriller, mediante uma vácua esterilização formal que pretende conceder uma pátina de qualidade e de suposta seriedade às suas histórias; longe também dos personagens que não param de falar que se normalizaram em alguns celebrados produtos televisivos de hoje em dia; apartado também de falsas pistas ("red herrings") e de uma utilização da focalização narrativa que toma o espectador como um badulaque (com ridículos circunlóquios misteriosos para desacelerar o desenvolvimento das tramas); no cinema de Saulner nem sequer existe a vontade intertextual ou irónica que satura boa parte do cinema contemporâneo.

Personagens em situações limite que se vêm atirados para a acção e violência que gera uma espiral de violência: violência que dói e que transmite essa dor ao espectador. Não falamos em "Green Room" de nenhum fascínio pela crueldade: ao contrário de outros realizadores (considerados "cool" por fazer algo como macho movies violentos), aqui não há nenhuma atracção pelas armas de fogo, pelo contrário - e isso para não contar demasiado da trama - gera-se no filme uma espécie de discurso (que não é um discurso em voz alta, é propriamente expressado nas imagens) que acaba por denotar a superioridade do engenho sobre a violência e as armas: inclusivamente, um apelo sobre a superioridade da mise en scène, da representação e da música sobre a violência. Este discurso acompanha a viagem de uns músicos de punk que vão tocar num antro de nazis: um grupo de jovens capazes de abrir a actuação com uma versão de "Nazi Punks Fuck Off" dos Dead Kennedys, mas que não pareciam suficientemente conscientes do perigo que acarreta relativizar a ideologia.
Personagens um tanto inconscientes que se encontram, de repente, numa espécie de mundo paralelo e perigoso, de certa forma conectado com eles: se quando vi "Blue Ruin" me veio à cabeça um pequeno e interessante filme de acção dos 80, "Quiet Cool", no caso de "Green Room" pensei num curioso cruzamento entre o cinema policial e de vampiros de 1987, "Enemy Territory"; não porque a estética se pareça, nem porque Saulner pareça beber daí (o seu filme é muito melhor), mas pela concentração espacial e temporal com que joga e porque também poderíamos enquadrar a longa-metragem, sem nenhuma vergonha, no género dos "action movies". Dizer que "Green Room" supõe uma espécie de western contemporâneo seria um tanto precipitado, mas à primeira vista pode haver elementos argumentais que remetam a esse género, a colocação em cena de Jeremy Saulner não segue as marcas de estilo do cinema do Oeste, e terá até mais em comum com o cinema bélico.

Saulner não pára a criar imagens poéticas nem costuma remarcar os feitos: o director tem algo da naturalidade com a que Siegel nos 70, e depois o seu pupilo Eastwood, costumavam afrontar as suas películas policiais (pensemos no uso frequente das panorâmicas); por naturalidade não nos referimos, obviamente, à planificação aleatória com a que Kathryn Bigelow decide os seus panfletos ("Zero Dark Thirty"). "Green Room" é, também, cinema que se posiciona, que não é o típico panfleto burguês de esquerda: a veracidade com que Saulner se acerca ao mundo dos grupos nazis, o detalhe com que nos apresenta lugares e personagens, descobre uma personalidade verdadeiramente interessada e implicada no que conta; neste sentido, "Green Room" oferece uma visão muito mais demolidora e visceral dos grupos radicais que a de filmes tão badalados como "American History X". E para isso não precisa de tratar os malvados da película como simples loucos ou desalmados; geralmente e apesar da sua maldade, os personagens são credíveis porque transpiram realidade e não estão caricaturados. Através da acção, mas também através dos olhares entre os jovens, o espectador sabe mais por este meio do que por qualquer diálogo: por exemplo, compreendemos a skinhead que se une aos protagonistas e podemos imaginar o seu mundo, sem necessidade de explicações.

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